- Geni e João Bobo

       

 

 

              Por ter o nome de João, não gostava quando (na minha infância) o LP de Ivon Cury - gravado no Teatro São Luiz de Lisboa - reproduzia “João Bobo”, canção sobre um tolo que amava a Rosa do Prado, mulher que a todos seu amor vendia mas nada queria com o pobre do João.

“Há, João bobo é gozado,

Ah,ah,ah,ah,

Quer casar com a Rosa do Prado”

        E a turma fazia bullying com o João contando que até com chicote bateu na Rosa e ela disse que odiava o otário.  Mas Rosa ficou velha e só encontrou carinho em João que deixou uma flor no túmulo da amada como homenagem.

        No show “Caravanas”, Chico Buarque relembra “Geni e o Zepelim”, música sobre a personagem que dava para qualquer um mas quando um poderoso chegou no balão dirigível apontando canhões para a cidade, todos tremeram e o inimigo disse que só não iria destruir tudo se Geni se deitasse com ele.  Mas Geni se recusou porque tinha seus caprichos e o povo que cantava “Maldita, Geni.” implorou que intercedesse pela população.

        E lá foram atrás da Geni pedindo que transasse com o cara do Zepelim.  “O bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão.”. Sobre o bispo não há referência se também seria prefeito e o banqueiro é inverossímil porque não há entre essa categoria algum tão generoso para abrir mão de quantia de tal monta.

        Geni transou com o inimigo, salvou a cidade, porém, os ingratos voltaram incitando uma agressão mais cruel porque, além da pedra; pediam para jogar bosta na Geni. 

        João Bobo de Ivon Cury e Geni de Chico Buarque se aproximam no despojamento, na superação e no sofrimento.  Ambos são exemplo de marginalizados com nobres sentimentos e pessoas assim fazem a diferença. 

        Geni não merece nem bosta nem pedras.  Afinal, superou o nojo entregando o próprio corpo numa causa. João pode ser pouco esperto, mas nenhum bobo seria capaz de amar pessoa alguma com tamanha intensidade.