- Viés nem tão ideológico

         Na seção Cartas de um jornal, a leitora indignada cobra das feministas uma posição a favor de Regina Duarte, recém-empossada na Secretaria de Cultura.  A cidadã afirma que só quem pensa igual a esquerda é respeitado e - quando não se alinha com os “esquerdopatas”, os “militontos” e os “petralhas” - a pessoa sofre ataques e ofensas sem mídia ou grupos para defendê-la.  A leitora encerra torcendo para que Regina Duarte faça ótima administração “varrendo” a esquerda que está insatisfeita porque perdeu a “boquinha” e não consegue mais viver sem a antiga “mamata”.  Para quem acusa a esquerda de ser mestra nas ofensas, a autora da carta não fica atrás.

         Atualmente, a turma que venceu as eleições presidenciais bate na mesma tecla: é preciso limpar o país da esquerda que domina a cultura, as universidades públicas e a imprensa.  Nessas instituições e em outras o viés ideológico prevalece.  Como se ideologia fosse só a do outro e quem é contra a ideologia, ideologia alguma possui.  Então, se faz necessário construir um novo país sem ideologia, embora, essa nova pátria rejeite tudo que seria um pensamento da esquerda.  No entanto, rejeitar a ideologia de esquerda não significa postura com viés ideológico.

          O esquerdista gostaria de viver às custas do governo, é contra a família, é a favor da homossexualidade, prega o respeito à natureza porque deseja o país sem progresso e promove orgias sexuais.   Por isso, há campanhas pela abstinência sexual, implanta-se o capitalismo neoliberal no qual os direitos trabalhistas são excluídos porque impedem a criação de empregos e novas escolas terão ensino militar para que o comunismo fique de fora das salas de aula.  Há o esquecimento de que Luiz Carlos Prestes era militar, Lamarca, idem.

         Os outros ofendem, são movidos por ideologia e têm como objetivo dominar o país.  Por isso, esse inimigo tem de ser varrido, metralhado, enxotado e, com esse fim, vale tudo, até reeditar o AI-5 e fechar o Congresso e acabar com o Supremo que está cheio de gente que os sucessivos governos de esquerda colocaram lá.  

         O país tem de se livrar do viés ideológico que tanto mal vem causando.  Com esse objetivo, o alinhamento com Trump e Netanyahu é vital.  Afinal, viés ideológico não serve a não ser para quem quer que o Brasil se torne uma Cuba ou uma Venezuela.