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- Videntes

        

 

 

    Pelas ruas há cartazes de videntes prometendo o amor de volta em poucos dias e previsões sobre o futuro.  Nunca entendi a serventia das previsões porque, se não se pode alterar, de que adianta saber o que acontecerá?

         Quando trabalhava em rádio, sempre que o final de ano ia chegando, produzia matérias com pessoas que se diziam capazes de prever o futuro.  Diziam que o ano seria de fenômenos naturais (enchentes ou secas), alguém importante não ia bem de saúde e poderia morrer.  Mas, o que despertava mais interesse no público, era o resultado do desfile das escolas de samba ou da Copa do Mundo, se a competição caísse no ano que viria. 

         Nas escolas, os videntes arriscavam que uma azul e branca ou vermelha e branca seria a campeã.  Nunca diziam que uma verde e rosa venceria porque – além da Mangueira – só a Lins Imperial tem essas cores.  Raramente, arriscavam um nome. Certa vez, um vidente garantiu que a Portela seria a campeã e outra escola faturou o campeonato.  Questionado no ar, o adivinho disse que os jurados mudaram o resultado.  Quer dizer, o futuro está sujeito a armações desonestas também.

         No futebol, geralmente, previam dificuldades para a seleção brasileira citando adversários tradicionais como capazes de impedir a conquista da taça.  Itália, Argentina e Alemanha eram países lembrados, mas prever o 7X1, por exemplo; não aconteceu.

         Minha mãe gostava de consultar videntes e uma delas garantiu que um dos filhos dela seria oficial da Marinha de Guerra.  A família ficou feliz porque era um futuro garantido nas Forças Armadas.  No entanto, meu irmão e eu – o máximo que viajamos próximo da adivinhação – foi na barca Rio-Niterói o que pode ser  uma interferência na previsão.  Afinal, um meio de transporte se deslocando nas águas, a vidente acertou.

         No entanto, a história familiar mais engraçada sobre vidência é a seguinte:

         Uma parenta estava mal no casamento e acompanhou minha mãe a uma sessão com uma vidente no Grajaú.  Dona Rosinha, a adivinha, disse que o marido da minha parenta iria morrer logo e o desquite (na época, ainda não havia divórcio) seria um passo mal dado.  Isto porque, o homem era militar e deixaria uma pensão para a viúva.  Essa parenta voltou algumas vezes cobrando a viuvez que não acontecia e a vidente garantia que daquele ano, o homem não passaria.

         A vidente morreu, minha parenta morreu e, o que teve a morte prevista, casou de novo, teve filhos e morreria muito tempo depois.

         Portanto, é preciso cuidado com as vidências porque, às vezes, não veem o futuro com muita clareza.