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- Trem da história

 

        A primeira vez em que ouvi a expressão ‘Perdeu o trem da história’ era criança e, no Brasil; havia trens.  Acredito que foi meu tio se referindo a um conceituado político civil que apoiou o golpe de 64 e foi cassado pelos militares.  O líder civil não embarcou no vagão dos sem farda e ficou na estação porque os milicos não pararam o trem para que o paisano embarcasse.

        Perderam o trem da história: o comunista que não pulou o muro antes do desmoronamento em Berlim, o americano que acreditou na Guerra do Vietnã como afirmação da supremacia dos Estados Unidos, o jovem pensando que não será prejudicado pela reforma da Previdência, aquele que repete a bobagem de que brasileiro é conformado, argentino é que vai para as ruas e o brasileiro aceita tudo e pereré pão duro.

     Perder o trem da história é tão ruim quanto não pegar o “Trem das Onze” do Adoniran Barbosa.

        Os Beatles tinham outro baterista que não Ringo Starr, sujeito que largou o conjunto acreditando que aquilo não ia dar certo.  Imaginem a cara dele quando aquilo deu mais do que certo?!  Na verdade, ele se chama Pete Best, culpa o empresário do grupo por ter abandonado o conjunto e seguiu a carreira de funcionário público. 

        Não se pode adivinhar o futuro e, numa situação limite, alguém se vê obrigado a optar por um lado que nem sempre é a direção correta.  Há relatos de gente magoada atribuindo o fracasso a uma escolha.  Era a fama ou a família, o certo ou o duvidoso, o que podia ter sido mas também não podia. 

        Quando se tem certeza de que a escolha foi errada, tudo bem.  Mas quando persiste a dúvida? Teria sido mais feliz no amor se tivesse aceitado o casamento? E se tivesse fechado o negócio? Há no ar uma impressão de que – embora numa boa – talvez, a outra escolha trouxesse a plena realização.  Tal situação é uma angústia de desconhecer se vive felicidade ou resignação.

        Quando se perde o trem da história, nada há a fazer.  Não se reconstrói o que sequer foi construído.  O jeito é olhar para frente, suspirar e seguir a pé.  Ao menos, há a certeza de que se vai chegar lá sem necessidade de esperar o trem.  Principalmente, no Brasil onde – embora existam promessas de revitalização da malha ferroviária - os trens estão cada vez mais escassos.