- Tempo com tempo

        Na Praia de Icaraí, na altura da Reitoria da Universidade Federal Fluminense, o relógio da torre dessa instituição está parado. 

Segundo Paulo Coelho, repetindo dito popular, um relógio parado marca hora certa duas vezes ao dia.  Quem junta tal informação com a notícia de que gêmeos nasceram em anos diferentes, se dá conta de que o tempo é uma abstração.  É claro que o tempo passa e o ser humano sente suas marcas.   No entanto, pode passar rápido quando se quer lento e devagar quando se quer ligeiro.  Portanto, o tempo quase não existe porque depende de nós e - nós sim -é que passamos. 

 Por incrível que pareça, até em tempos de isolamento por causa da pandemia, somos nós que passamos.

        A avó falava:

“O tempo perguntou ao tempo, quanto tempo o tempo tem.  O tempo respondeu ao tempo que tudo com tempo dá tempo.”

        O tempo é um para quem conta a história antes e depois de Cristo; outro, para os judeus que estão em 5781, diferente para islâmicos e budistas.  Estar à frente ou atrasado, depende do ano em que se escolhe para contar a passagem do tempo.  Por isso, tudo com tempo (dependendo do tempo que se conta) sempre dará tempo.  Errado é querer voltar no tempo, para qual tempo? No Brasil, dependendo da ideologia de quem fala, o tempo sequer passou.  Outro engano, é a crendice de que se pode avançar no tempo porque o futuro, talvez, seja hoje.  E hoje, se não passou, está passando.

        O tempo é uma obsessão e uma angústia.  Impossibilitado de mudar o passado, o ser humano insiste em construir um futuro que ainda não aconteceu e independe da vontade de qualquer pessoa.  Principalmente, porque, entre o presente e esse futuro, há a possibilidade da morte.

        Há pessoas que buscam resposta nas cartas do Tarô, nas videntes, nos búzios, na borra do café, nas previsões dos médiuns que recebem espíritos dos que morreram e não se perguntam como alguém que veio do passado pode prever o futuro.

        O tempo naquele relógio parado da torre da Reitoria da UFF em Icaraí é o aviso de que o tempo é uma abstração real que faz gêmeos nascerem em anos diferentes e sonhos nunca se realizarem.  Por isso, o tempo não é o senhor da razão, mas o aliado dos desarrazoados.

    Quando tudo isso passar e voltarmos a caminhar nas ruas, aquele relógio parado da Torre da Reitoria da UFF terá outro significado.  Embora parado, será a lembrança de um tempo de isolamento que parecia eterno, mas passou. Quando isso acontecer – em breve, se Deus quiser – seria bom a universidade providenciar o conserto.

         

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now