Leia

        

 

 

 

 

- E ninguém falava nada.

 

 

        Quem apoia o governo, constatando que as desculpas não  colam mais, apela para desencavar notícias de governos anteriores.  No corte das verbas para universidades federais, a princípio, a medida atingiria três instituições onde (segundo o ministro da Educação) havia balbúrdia.  O pessoal que apoia o governo concordou porque nessas universidades só havia nudez, maconha e aluno que não queria estudar.  Na cabeça dessa gente, com o corte, os vagabundos iriam embora e só ficariam os dispostos a aprender.  Não sei como chegaram a tal conclusão, mas foi o que circulou.  Quando o ministro anunciou que o corte seria estendido a todas as universidades federais, a justificativa passou a ser que havia muito rico nas faculdades sustentadas pelo dinheiro público. Sem verba, os ricos sairiam e os pobres teriam vez.  Não sei como chegaram a tal conclusão, mas foi o que circulou.  Quando o corte se estendeu ao colégio Pedro II, o jeito foi postar notícias antigas com o lembrete: “Dilma e Lula também cortaram verba da Educação e ninguém falou nada.”.

         Se foi notícia, alguém falou alguma coisa.  No caso da Dilma, houve gente batendo panela nas ruas, também nos condomínios e passeatas percorreram ruas de diversas cidades no Brasil e no exterior.  Além do processo de impeachment que afastou a presidenta do cargo.  Essas manifestações não foram pelo corte nas verbas para Educação, mas contra o governo do PT e tudo que era feito.  Portanto, dizer que “ninguém dizia nada” não é verdade. 

Sobre Lula, o que se falou dele..... ou esquecem a história de que seria um bêbado contumaz divulgada até por um correspondente de um jornal dos Estados Unidos?  E se falou tanto contra Lula que ele acabou preso e alguém representando o oposto da ideologia do PT foi eleito.  Então, teria cabimento justificar medidas tomadas pelo governo que aí está alegando que governos anteriores (derrotados pelo atual) fizeram o mesmo?

         E ninguém falava nada é um argumento sem muita consistência.  Já imaginou culpar a opinião pública da época dos governos comandados por generais porque não falavam nada.  Claro que não falavam nada, havia censura e repressão.  Até teve gente que falou, mas pagou caro por isso. 

Partindo desse princípio, brasileiros que viveram nos períodos duros da ditadura seriam omissos ou coniventes ou admiradores do regime discricionário.  Afinal, não se falava nada contra corrupção, arbitrariedades e injustiças.  A não ser que tenha gente pensando que de 64 até a despedida do último general, nada disso tenha acontecido no Brasil.

         Quando vier para valer a tal Reforma da Previdência, talvez, alguém diga que, no tempo de Epitácio Pessoa, aposentadoria era rara e ninguém falava nada. 

E quando começarem a extinguir os direitos trabalhistas? Podem lançar o argumento: no tempo do imperador Pedro II, existia a escravidão e ninguém falava nada.

                É bem provável que logo entre na conversa alguma pessoa lembrando Castro Alves, José do Patrocínio, Luiz Gama.......  mas será que vale a pena?