-  Show de verão da Mangueira

    

 

 

  Chico Buarque é quem abre o “Show de verão da Mangueira” com aparência alegre e ensaiando alguns passos de samba.  Quem olha assim nem imagina que aquela figura risonha anda sob ataque ferrenho dos adversários que o acusam de levar dinheiro da Lei Rouanet numa mamata que estaria com os dias contados.  Faz tempo que a mamata está com os dias contados.

     Chico canta “Vai passar” e outros clássicos que compôs e, agora, há quem diga que ele teria comprado.   Por isso, a turma da direita raivosa apoia o presidente que se recusa a assinar o “Prêmio Camões” vencido pelo compositor a ser entregue dia 25 de abril deste ano. 

        Com Martinália, Chico divide “Partido Alto”, aquela música que a censura do regime civil-militar implantado em 64 mandou truncar algumas passagens da letra como a que dizia “Deus é um cara gozador pra me botar no mundo tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado me botar cabreiro na barriga da miséria, nasci brasileiro (sobe corte), sou do Rio de Janeiro.”

        Aliás, há um desconforto na plateia durante a apresentação de Leci Brandão que, ao cantar “Apesar de você” demonstra intensa emoção e o público levanta um coro de xingamento ao atual presidente da República.  Alguém grita contra “as viúvas do PT”, outro diz que aquilo é uma falta de educação.  Se é falta de educação, o presidente – tão educado – não merece mesmo isso.

           O enredo da Mangueira mexe em questões religiosas e estaria sendo criticado por não ser muito claro, o que não é verdade.  Há a intenção explícita de mostrar os tempos de intolerância pelo qual passamos e desmistificar o “Jesus ariano” que foi imposto pela tradição europeia.

“Mangueira

Samba, teu samba é uma reza

Pela força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também”

           A santidade do Salvador está entre os que O representam neste trecho do samba de Luís Carlos Máximo e Manu da Cuíca, um dos poucos com número pequeno de autores.

“Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra no buraco quente

Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro, desempregado

                                               Minha mãe é Maria das Dores Brasil”

           Bethania entra no palco declamando naquele tom próprio revirando fatos de diversos momentos históricos e homenageia Vinícius de Moraes com “Samba da Bênção”, momento propício para citar inúmeros cantores, compositores e artistas do Brasil que tiveram e têm como característica a união, a solidariedade e a tolerância.

           O show relembra Beth Carvalho, Cartola, Nélson Cavaquinho e traz ao palco Nélson Sargento numa cadeira de rodas. As participações de Péricles e Pretinho da Serrinha (excelente músico) são marcantes.   Marquinho Art’Samba, intérprete da escola, canta o samba enredo com competência acompanhado pela bateria e com alguns passistas evoluindo no palco.

           O “Show de verão da Mangueira” mostra uma escola empenhada em fazer um bom carnaval em 2020, evento que, apesar de gente tentando derrubar, será vitorioso mostrando a cara de um Rio de Janeiro soberbo e feliz. 

            Cidade que precisa encher a concentração e soltar o grito:

 

“Até a vitória, sempre!!”

                         

                       "Olha a apoteose aí, gente!"