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Senhas

 

 

          A humanidade se tornou escrava das senhas, tendo que decorar inúmeras nas contas bancárias, no computador e na tecnologia que invadiu o cotidiano.  Mas Rubinho se considerava um mestre nas senhas, guardava todas na cabeça e não tinha erro.  Rubinho Vaz Pinto.  Nos tempos do colégio, o pessoal encarnava: “Rubinho, Vaz Pinto onde?!”.  Era uma época quando o bullying ainda não era tão combatido.

     E Rubinho se tornou o “homem-senha”, aquele capaz de se lembrar das combinações que fazia para o cartão de débito, o cartão de crédito, para abrir o portão no condomínio e por aí afora.  Rubinho não anotava senhas, tinha tudo muito bem guardado na cabeça, memória privilegiada nestes tempos de ditadura das senhas.

Rubinho ganhou um cofre eletrônico.  Um pequeno aparato no qual nada guardou, mas resolveu digitar uma senha.  Em alguns hotéis, existem utensílios semelhantes.  Teclados por fora e o hóspede digita a senha guardando bens e passaporte.  Rubinho nem pensava em deixar nada no cofre, ganhou, instalou e digitou uma senha.  Incrível! Não lembrou a senha.  Aniversário da mulher mais aniversário dos filhos mais número da casa da vila onde morou quando criança... combinação alguma dava certo. 

         O cofre inútil guardando o nada desafiava a habilidade de Rubinho.  Ele passou manhãs, tardes, noites, madrugadas que se emendaram com dias, semanas e meses. 

                 O pessoal dizia:

          “Não existe nada nesse cofre.  Arrebenta essa porcaria!” 

        Rubinho encarava aquilo como um desafio pessoal. Ele queria abrir o cofre teclando a senha que inventara e esquecera. 

Vítima da “Síndrome da senha esquecida”; assim ficou Rubinho, um vencido, um doente. 

          A família internou Rubinho que,  sedado,  manipula números e letras que não se combinam nunca.