- Semana Santa

 

        Houve um tempo quando, na sexta-feira da Paixão, rádios tocavam músicas clássicas, tevês e cinemas passavam filmes sobre a vida de Cristo.  O rosto de Jesus não aparecia, a câmera focalizava o Filho de Deus de costas e, o primeiro filme que vi no qual o Salvador mostrava a cara foi “O Rei dos Reis”, com Jeffrey Hunter.  Esse ator morreria ao levar um tombo na escada e fiquei indignado porque achava que, mesmo um jesus de cinema, merecia morte mais heróica.

        Na Rádio Nacional, entrava no ar uma adaptação de Ghiaroni com Roberto Faissal no papel de Jesus Cristo.  Por muitos anos, a voz do ator foi a oficial do crucificado.  Em determinado trecho, Roberto Faissal dizia: “Pai, perdoai porque eles não sabem o que fazem.”  Do outro lado do rádio, o ouvinte suspirava com pena do martírio porque aquela voz dava a dimensão exata da Via Crucis.

        Não se varria casa, homens não faziam a barba e o mundo parecia mergulhado na mais absoluta tristeza, um tom tão acentuado de melancolia que cheguei a me sentir culpado pela morte de Jesus. Por isso, comparecia à malhação de judas com entusiasmo no sábado de Aleluia descarregando no boneco, símbolo da traição, toda a ira contra a delação em troca de 30 moedas.  Podia ser também raiva porque eu – sem ganhar nada – chorava de remorso pela consumação da morte de um inocente.

        Aliás, se tivesse de escolher de quem era a culpa maior pela morte de Jesus Cristo, apontaria Pilatos.  Lavar as mãos é um gesto mais condenável do que a traição.  Afinal, o traidor escolheu um lado e quem lava as mãos sequer tal dignidade tem. No entanto, em tempos de pandemia, lavar as mãos é um ato de amor à vida diferente da indiferença de Pilatos.

        O que mais me aborrecia na Sexta-feira da Paixão era a proibição de comer carne.  Depois, bispos e sacerdotes católicos explicaram que tal sacrifício seria desnecessário num país onde havia famintos.  Mas eu até hoje não consigo comer carne na data da morte de Cristo.  Até mesmo ouvindo o argumento de que o calendário era outro o que tornaria o jejum mais inútil ainda. 

Não como carne na Sexta da Paixão e lembro o Gutinho, colega numa empresa na qual trabalhei muitos anos.  Quando a Semana Santa ia chegando, ele repetia a piada:

“Duas coisas nunca comi na vida: carne na sexta-feira da paixão e gay.”

        O pessoal ria.

        Há pouco tempo, encontrei Gutinho e mexi no passado.

- E aí? Continua sem nunca ter comido gay e carne na Sexta-feira da Paixão?

        Gutinho riu e respondeu que mudara de atitude.

- Você já come carne na sexta-feira da paixão?! – perguntei surpreso.

        Ele riu:

- Acha que ia cometer um pecado desse?!

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