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- A morte não tem importância

 

               Compulsão de matar, entendeu do que se tratava ao longo do tempo quando começou a amanhecer e anoitecer pensando num jeito de matar João Alfredo, o vice-superintendente-geral.  O cargo não tem significado especial – o que é ser vice?  Quando garoto, se embatucava com os cargos de vice-presidente, vice-governador, vice-prefeito etc.  Achava que o vice-presidente só era acionado se o presidente morresse, ou renunciasse, ou fosse deposto.  Mas, enquanto o presidente estava no cargo, para que serviria um vice?  Não encontrou pessoa alguma que respondesse e percebeu que ninguém sabia sobre a serventia de um vice.  Alguém importante, é claro. 

            J. Alfredo era importante, vivia cercado de secretárias e assessores.  Quando assumiu o cargo na empresa, houve reunião na sala do quinto andar.  Foram convocados os funcionários do quarto, do terceiro e do segundo andares.  O pessoal do térreo ficou de fora, como era praxe.  No térreo funcionavam os departamentos de menor importância, funcionários que usavam uniformes.  As empresas são assim: o andar lá em cima é sempre o mais importante.  Lá ficava João A., que diziam ser um sujeito com curso em Yale, passagem pela Suíça e recém-saído de um cargo numa multinacional para assumir a vice-superintendência-geral.  Portanto, um currículo invejável. 

         Ele queria matar J. Alfredo, cujo sobrenome comprido só via nos documentos que circulavam com determinações, metas e outras coisas que sempre tinham por objetivo cortar os custos.  Cortar custos significa demitir funcionários.  Hesita-se em cortar custos abolindo máquinas, desligando elevadores, apagando lâmpadas... mas não há hesitação ao diagnosticar que o prejuízo de uma empresa está representado em seu corpo de funcionários.  Quanto menor o salário, mais probabilidades o funcionário tem de sofrer o corte.  Afinal, custa muito manter um ser humano. 

         Mas ele não queria matar J. A. por qualquer sentimento humanista ou consciência da injustiça.  Tinha boa posição na empresa, era um profissional competente, vitorioso... não pensem que é um derrotado. Recebia cumprimentos de J. Alfredo, que sabia até o nome dele.  O vice-superintendente entrava de carro pela garagem, o Melo abria a porta do elevador, J. A. entrava sem falar com ninguém.  Mas falava com ele, que deu de cara com o vice-superintendente no elevador e dele recebeu um sorriso.  Como vai?  Aquela campanha vai indo?  Ele olhou João A. e sentiu vontade de matar aquele homem.  Disfarçou, sorriu, mas na cabeça vinha a cena: J. Alfredo agonizando em suas mãos. 

        Comentou com a mulher e foi um choque.  “Você está doente!! Procura ajuda!! Você está doente!!!”  Ela não entendeu que – ao contar – procurava a ajuda dela.  Argumentou que tinha lido um negócio desses numa coluna de um psicoterapeuta num jornal.  O cara dizia que uma cliente sentia vontade de enfiar uma vareta no olho do filho.  A mulher chorou e ele percebeu que teria que carregar sozinho aquilo.  Uma coisa tão forte que busca eufemismos.  Aquilo é matar João Alfredo.  Só teria sossego no dia em que matasse João Alfredo, o vice-superintendente.  Logo ele, homem frágil que precisa de zelos.  Logo ele, homem que fugia do confronto físico.  Certa vez, discutiu com um vizinho por causa da vaga na garagem e se sentiu muito mal.  Acovardou-se, cedeu.  Por que a vontade de matar o homem importante do quinto andar?

                    João Alfredo tem mulher, filhos e postura de bom pai.   Lá está ele botando o casal de filhos dentro do carro para levá-los à escola estrangeira.  São duas crianças que terão a mesma formação do pai para enfrentar o mercado de trabalho restrito e competitivo.   Não se pode prever um futuro vitorioso para ambos porque nem sempre os filhos seguem os passos paternos.  O pai do homem que queria matar João Alfredo, por exemplo, não foi um vitorioso, embora trabalhasse bastante na ilusão de alcançar a vida equilibrada dos que não se preocupam com o futuro.  O futuro foi a tortura do pai do homem que queria matar o vice-superintendente, organizando bufês no restaurante, comandando os garçons, servindo às autoridades, que nem eram tão importantes assim.  Lembra-se de um jantar em homenagem a um sujeito desses no ginásio de um clube.  De longe, viu o figurão se encaminhando para cumprimentar alguém e o pai pensou que o alvo do cumprimento era ele, mas o cara passou direto, deixando o velho de mão estendida.  Aquele homem que não viu a mão estendida do pai dele deveria ser o pai de João Alfredo.  Essa ideia bate na cabeça agora.  João Alfredo estende a mão sim, num cumprimento cerimonioso.  Mas por que o pai dele deixou o outro de mão estendida numa situação constrangedora?  Delírio, não é?  Ele tira da memória um incidente constrangedor da infância para culpar João Alfredo, porque a futura vítima precisa ter alguma culpa.  João Alfredo não pode ser tão clean assim levando os filhos para a escola, beijando a mulher, lamentando as vítimas do World Trade Center e sorrindo em direção à guarita de segurança do condomínio.  Aquele homem que não estendeu a mão não era pai do vice-superintendente, mas passou a ser porque o futuro morto precisa ter culpa.  “Alguém da sua família sujou essa água.”  Recordam a fábula? A culpa que não pode ser do assassino, tem de ser da vítima. 

        João Alfredo carrega a consciência tranquila dos carrascos que cumprem o dever, dos exterminadores que atribuem seus atos a uma defesa ou controle social.  Qual a diferença entre matar pivetes numa biboca de favela e cortar a folha de pagamento?  João Alfredo precisa de uma culpa, como adúlteros encontram justificativas para os casos extraconjugais etc. etc. etc.   Ele matará João Alfredo com a consciência limpa de quem eliminou alguém que não valia absolutamente nada.  É um rito que obedece a uma série de propósitos nobres.

                  Ele é chamado para discutir a reengenharia da empresa, mostra o cronograma das seções e ouve a pergunta sobre em que seção deve ocorrer o corte.  O dedo vai direto naquele lugar do mapa.  João Alfredo toma um susto.  “Aqui?!”  Ele balança a cabeça afirmativamente.  “Acho que há outros departamentos que comprometem a produção.”  Ele diz que não.  Ali  se concentra todo o desperdício da empresa, porque os salários são altos e o retorno, pequeno.  João Alfredo ajeita os óculos, sorri e o dispensa. 

         Não demorou muito para Salazar chamar.  Salazar é o terceiro na hierarquia.  Em segundo está Amélia Bates, pessoa que não mexe com isso.  “Você está com algum problema?”, pergunta Salazar, e a resposta é não.  “Quer uma semana?”  Ele diz que não está entendendo.  Salazar tem a mania de balançar os dedos nos lábios, igual quando a gente faz bilu-bilu nas crianças.  Agora, ele vai pegar pesado.  Pronto.  Parou o bilu-bilu ridículo e faz pose de chefe: “Você está fazendo merda!”  Salazar incorpora o chefe de vez. “Isso aqui está em crise, cara!! A gente tem que passar o rodo mesmo.  A folha de pagamento tem que ser de treze por cento!! Isso é o máximo que uma empresa moderna tem que gastar com o pessoal! Como é que você faz isso?  Você vai dar um tempo e voltar com todos os objetivos prontos.  Entendeu? Guarda esse dedo que só pode apontar pro lugar certo!”  Agora, já estava enrolado mesmo.  É uma estratégia que a gente usa para não voltar atrás.  Quando apontou o dedo, era com esse objetivo – se obrigar a não recuar.  O dedo indicador direito, o mesmo que seria usado para apertar o gatilho da arma, arma que mostra ao homem que dá lições de tiro ao alvo.  “Antiga.  É uma relíquia.  Tem colecionador que dá uma grana por ela, sabia?”  Foi do sogro que lutou na Guerra do Chaco, uma guerra entre Paraguai e Bolívia patrocinada pela Inglaterra.  Ele deu tiro com essa merda em outras ocasiões também.  A última contra Stroessner na Revolta do Colégio Militar.  Por isso, fugiu para o Brasil e morreu aqui sem voltar a Asunción, como um pássaro distante do ninho onde nasceu.  “Como é que é?!”,o homem pergunta.  Explica que é uma guarânia e ele não se interessa muito.  Os treinos são num campo de tiro na rodovia Rio-Petrópolis e seu desempenho melhora lição após lição.  Quando se tem um objetivo é assim mesmo.  O assassino já era uma fruta dentro da casca igual à suposta adúltera Capitu.  Com uma diferença, não é produto da imaginação de um homem que suspeita da traição, como em Dom Casmurro.  Ele é a realidade que não vai deixar nenhuma dúvida pairando sobre os acontecimentos.  Ele vai matar João Alfredo, não haverá dúvidas sobre o crime, a vítima e a identidade do assassino. 

           Lá vai ele entrando na sala de João Alfredo, que levanta a cabeça surpreso.  O vice-superintendente olha, esperando uma justificativa para aquela presença.  “Vim aqui por um motivo especial pra mim.”  João Alfredo faz ar de quem não está interessado no assunto.  “Você pode marcar com Elaine uma hora? Estou ocupado.  Por favor, vá embora!”  O tom demonstra que não haverá próxima vez.  Não marcará hora para nada, o homem poderoso da empresa nunca mais vai querer vê-lo porque arrebentou as regras da hierarquia, do bom senso e do respeito.  “Eu vim te matar, babaca!”  A futura vítima ainda não se apercebeu do perigo.  Surpreso.  Nada mais estranho do que um poderoso surpreso.  É a primeira reação antes do pavor.  A velha arma da Guerra do Chaco está na mão do homem, que não pensa em outra coisa a não ser em matar João Alfredo; por isso tranca a porta e fica diante do objeto de seu desejo.   “Eu vou chamar a segurança.”  “Pode chamar.  Eles não vão chegar em tempo hábil!” Dá o primeiro tiro, acertando no ombro do puto.  Ele se desequilibra.  “Errei, porra!”  Se aproxima mais.  João A. revira os olhos sem entender porque está morrendo.  Agora é para valer.  O segundo tiro bate no pescoço, naquela veia que solta um esguicho.  O chefe da segurança entra na sala.  “Não vou matar mais ninguém! Tô me entregando.  Só entrei aqui pra matar ele!  Acabou! Eu mesmo chamei a polícia. É bom não me matar não porque expliquei que só queria matar o João Alfredo.  Esta é a arma do crime... não mexe! É arma do crime e uma relíquia.”  O puxa-saco do chefe da segurança não sabe o que fazer. 

        A mulher disse que o advogado vai alegar assédio moral, quando o chefe humilha o subordinado.

A morte de J. A. não tem importância. 

Ontem, o assassino dormiu profundamente.

Hoje, amanheceu com um sentimento regenerador de quem se descobriu humano.