O irmão do gênio

 

        Faz algum tempo, havia artistas geniais que eram desconhecidos do público.  Sempre que falavam que violão quem tocava muito era o Baden Powell, surgia alguém para dizer:

- Você não conhece o Julinho...

        Julinho não era famoso porque a imprensa (mídia ainda era um termo desconhecido) não divulgava.  Mas ele era a perfeição dedilhando o violão e fazia sons que poucos seriam capazes de reproduzir.  Dizem que - em plena praia da Barra (as apresentações dele eram sempre para selecionados amigos e em locais reservados, a Barra, naquele tempo, era distante e deserta);  uma mulher bonita chegou e os dedos do Julinho deslizaram pelas cordas do instrumento fazendo um som semelhante ao assovio 'Fiu-Fiu', que era como se galanteava as mulheres naquelas anos soterrados pelo passado.

        Esses gênios eram fruto de uma imaginação semelhante à que atualmente atribui à Clarice Lispector, Borges, LF Veríssimo e outros escritores; textos que essas pessoas jamais escreveram.  Havia sempre um gênio que ainda não fora descoberto ou porque o mundo era injusto ou porque - por pura maldade - a imprensa ou os poderosos ou a ignorância do povo não permitiam o reconhecimento.

        No entanto, de todos os artistas ocultos, na minha opinião, nenhum superava 'o irmão do.....' e diziam o nome de um compositor e cantor admirado.  Um desses gênios nacionais que os festivais da canção revelaram.

- É o irmão dele quem faz as músicas.... as letras... tudo!!

        O motivo do irmão assumir a autoria das canções me intrigava e as explicações eram evasivas. Parece que o irmão genial não gostava de aparecer ou era doente ou, simplesmente, admirava tanto o mano que abria mão de todo o sucesso e da glória.  O dinheiro - não tenho certeza - se era dividido.  Mas espero que esse irmão dividisse a grana, não é? É o mínimo que se espera de um irmão.

- É o irmão dele!! - alguém dizia com a mão fazendo concha na boca como se contasse um segredo - O famosão não faz nada.  Vive às custas do talento do irmão e os bobos ainda batem palma.

        Quando trabalhava em rádio, fiquei frente a frente com esse artista que é meu ídolo ainda hoje.  Tive vontade de perguntar se existia esse irmão que fazia as músicas.  A pergunta me coçava e quase saiu mas não tive coragem.  Também, se a história do tal irmão fosse verdadeira;o artista jamais revelaria.

        Lembrei essa história porque - numa tentativa ridícula de desmoralizar suas posições políticas - circula um boato de que Chico Buarque na verdade comprou as músicas que dizem ser dele.  Sei que é mentira, mas.....

           "Construção, O que será e Carolina.”

           Fui eu que vendi! 

          Então, só falta descobrir quem negociou as muitas outras.

 

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