- O próximo livro

 

     

 

 

   Quando se lança um livro, a pergunta mais torturante é:

“E o próximo?!”. 

       Não sei em outras atividades mas – na literatura – o que está pronto não sacia o suposto leitor que quer saber quando virá o próximo livro.  Não só quando virá mas sobre o que é.

        Mas passei por uma experiência diferente.  A pretensa leitora quis saber se eu já tinha alguma coisa pensada para o livro depois do próximo.  Isto é, como disse que já estava com um romance quase pronto, ela me perguntou:

- E depois desse quase pronto? Qual vai ser o próximo?

        Ser escritor no Brasil é difícil, editar um livro no Brasil é quase impossível, já vi o projeto de ter um livro publicado distante e tem gente querendo saber do próximo.  E, às vezes, não se contentam nem com o próximo porque – na cabeça de muitos – um escritor de verdade já tem uma obra completa pronta.  Talvez, um dia, alguém inove perguntando:

- Se acredita em reencarnação, qual livro você pensa em escrever na próxima?

        Desde criança, quero ser escritor.  Lembro que – no começo da minha vida escolar - uma professora insinuou que eu copiara um texto sobre abolição da escravatura porque uma criança não escreveria aquilo.  Atualmente, seria politicamente incorreto porque falava da sinhazinha loura e o recém-liberto negro agradecendo a Princesa Isabel pela liberdade.  Como se escravidão causasse a mesma dor para ambos.

    Já ouvi que brasileiro não gosta de escritor brasileiro e, quando (Na década de70) contistas tiveram projeção, os críticos falaram que brasileiro não conseguia escrever livros longos.  Por isso, produziam contos curtos que seriam o “soneto” daqueles tempos.

           Já me falaram que eu jamais seria escritor porque não sou nordestino e uma editora de Santa Catarina alegou que não podia publicar meu livro porque “catarinenses - principalmente, os de ascendência germânica - têm antipatia por cariocas”. 

Mas eu nunca desisti. 

Há uma lenda de que – já velhinho- Charles Chaplin, quando recebeu o único Oscar da carreira, teria dito: “Esse prêmio é mais por minha persistência do que pelo meu talento.”.

Longe de mim comparar meu talento com o de Chaplin, mas minha persistência....

Por isso, quando me perguntam pelo próximo como se aquele que lanço fosse apenas mais uma etapa vencida sem dificuldade, finjo que não ligo. 

Afinal, com ou sem a pergunta sei que – em breve – virá o próximo.