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- O Lado certo da História

       

 

   Há figuras que entram na história por acaso, o exemplo mais conhecido seria Simão Cirineu, o homem que passava pela Via Crúcis e foi convocado para levar a cruz de Cristo.  Ele tentou se livrar da tarefa, mas os romanos o teriam obrigado e o nome dele chegou até hoje.  Pilatos no Credo é outro que estava lá naquele momento e foi jogado na História ao lavar as mãos depois de tentar dissuadir a multidão.

        Há os que entram para a história porque escolheram um lado. Nessa opção, tiveram coragem porque tomaram a defesa da parte mais fraca.  Oskar Schindler é reconhecido por causa da lista que elaborou salvando milhares de judeus do extermínio.  Nascido numa família católica, Schindler poderia ter optado pelo silêncio porém jogou fora a cumplicidade, a conivência e se arriscou enfrentando a irracionalidade nazista. 

        Aristides Sousa Mendes era cônsul português em Bordéus, França, e enfrentou a ditadura de Salazar enviando para Portugal cerca de 10.000 judeus.  Pessoalmente, acompanhou um grupo até a fronteira enganando a vigilância dos guardas que tinham ordens de não deixar judeu algum passar.  Para se ter uma ideia, Salazar decretou luto oficial na morte de Hitler.  Portanto, encarar esse admirador do líder nazista que tinha poder absoluto foi uma façanha. 

        O Brasil tem um representante nessa galeria: João Guimarães Rosa, o escritor que era cônsul em Hamburgo e emitiu vistos para judeus viajarem ao nosso país. Na época, a ditadura de Getúlio Vargas tinha simpatia pela Alemanha nazificada. Rosa escolheu ficar contra o ditador e a favor dos perseguidos. 

        Essas atitudes me fascinam porque não foram nada confortáveis. 

        Na história brasileira, Luiz Gama era negro nascido livre e – aos 10 anos de idade - foi vendido como escravo pelo pai para saldar dívidas de jogo.  Luiz Gama não só se livrou do cativeiro como se tornaria advogado e especialista em libertar escravos.  Ele poderia ter seguido em frente e virado as costas aos de sua cor.  Afinal, quem conseguia se livrar das correntes naquela época sabia a dimensão exata do perigo que corria. Mas se engrandeceu ao se engajar na luta pela liberdade. 

        Não sou gay, tenho na pele a mestiçagem que até me garantiria a condição de branco no Brasil, não professo fé umbandista ou frequento casas de candomblé. Não pertenço a qualquer minoria que, na maioria das vezes, sequer é tão minoritária assim.  No entanto, ao testemunhar o crescimento de um sentimento preconceituoso que se disfarça de Brasil livre ou se esconde numa suposta verdade religiosa. Ao ouvir pregadores da moralidade e ler notícias de intransigência.  Inspiro-me nas pessoas citadas e escolho o lado perseguido para somar voz. 

    Igual a Schindler, Sousa Mendes, Luiz Gama, José do Patrocínio, Castro Alves, Mandela,Santa Irmã Dulce, Luther King, Nise da Silveira, Judith Labouriaux e tantos outros quero estar do lado certo da história.