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                                                       - O competente

         Na época da ditadura, a inflação disparava, o preço da gasolina aumentava todo dia mas não se podia criticar o ministro responsável pela economia porque vinha logo a expressão: “Ele é competente.”.  A competência fazia do ministro alguém acima de qualquer contestação ainda mais feita por quem não tinha tanta competência como ele.

         Desconfio de pessoas competentes que são grosseiras e pouco educadas.  Tenho horror a pessoas competentes que se comportam com arrogância e prepotente.

         Trabalhei numa empresa em que a diretora de jornalismo entrava sem sequer dar bom dia a quem estava na portaria e ignorava quem subisse com ela no elevador.  Mas era competente com poder e despertava admiração.  Embora a audiência despencasse, corria a fama de sua competência que se firmava no desprezo que inoculava em quem estivesse em volta.

         Não se é obrigado a ouvir desaforo de pessoa alguma porque o ofensor é supostamente competente.  Isso não é ser politicamente correto mas exercer um direito de ser respeitado.  Desconfio dos competentes que lançam mão da humilhação para subjugar quem está em posição inferior porque tal soberba representa afirmação da hierarquia.  

         Na década de 70, conheci uma professora que dava aula de português para estrangeiros na PUC, um dos alunos era Albert Sabin, o inventor da vacina contra a Pólio.  Ela dizia que o cientista – casado com uma brasileira – queria conviver com outros porque acreditava que aprenderia melhor.  Sabin entrava na sala dando bom dia, pedia licença quando queria esclarecimento de dúvidas e, certa vez, surpreendeu ao pedir licença a uma faxineira que varria o corredor.  Isso, um dos maiores cientistas da história da humanidade queria passar, pediu licença à faxineira que parou o serviço e deu vez ao criador da vacina Sabin. 

         Quando se ouve essa história, dá para engolir ofensa de algum competente?

         Quem é competente se estabelece, se impõe e merece reverência.  Mas por seu valor profissional e não tem o direito de falar o que bem entender.  Principalmente, porque – quando vem a reação – a maioria desses competentes encara o retorno como uma ofensa imerecida. 

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