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- Navegar é preciso

 

         A "Escola de Sagres" não era um colégio com o significado que a palavra tem hoje mas um local para reuniões projetado por Dom Henrique.  Na "Escola de Sagres", havia o lema "Navegar é preciso, viver não é preciso.".  Na realidade, a frase (que seria inspirada num verso de Virgílio) se prestou a interpretações errôneas: o preciso aí é de precisão, exatidão, o que é categórico e inquestionável.  Logo, navegar tem direção certa com bússola, mapa e etc.  A vida não se presta a tamanha garantia.

      Por isso, não acredito que Cabral tenha saído de Portugal para ir às Índias e, ao errar o caminho, deu nas costas do que seria o Brasil.  Para quem "navegar é preciso não por ser necessário mas por ser categórico" o acaso não existiria.

      Brasileiros, com a mania de desmerecer portugueses, porque acham que ingleses ou holandeses teriam sido colonizadores mais adequados, gostam de insinuar erros nos lusitanos.  É assim com o Rio de Janeiro que seria uma confusão da baía com um rio.  No entanto, ouvi a versão de que portugueses chamaram a porção de água de 'ria', palavra que significa baía, como é mais fácil dizer Rio de Janeiro em vez de Ria de Janeiro, ficou a primeira opção como nome da cidade.  Se houve erro, foi de quem falou e não de quem nomeou corretamente a baía de ria.

      Pedro Teixeira, navegador português nascido perto de Coimbra, conquistou a Amazônia para o Brasil viajando mais de 10.000 km entre Belém e Quito, lá pelos anos de mil seiscentos e pouco. Quase que perdemos a Amazônia para os espanhóis se não fosse o Pedro Teixeira. Como um povo capaz de navegar com tanta segurança sem se perder na Amazônia daquele tempo poderia ter se enganado de rota em qualquer navegação?

      Navegar é preciso porque é seguro.  As bússolas dariam mais segurança às caravelas do que o GPS aos contemporâneos automóveis que podem entrar num caminho mais curto para se chegar ao destino.  No entanto, quem garante a segurança do caminho que o GPS aponta?  

Navegar é seguro porque não há erro entre as ondas do mar, a calmaria dos ventos, a solidão noturna das estrelas. 

      Por isso, quando houver qualquer dúvida, quando uma decisão parecer difícil; não se ache diferente.  Cabral saiu de Portugal com a certeza de que chegaria ao Brasil porque navegar é preciso. Mas nós não sabemos bem o final da viagem.  Mesmo com toda tecnologia, viver é impreciso e fica impossível traçar rotas seguras nesta aventura.