Leia

 

 

 

 

- Nada ao passageiro

 

        Nas chanchadas da Atlântida, Oscarito já fazia piada com o lotação, transporte coletivo carioca precursor das atuais Vans.  Perigosos, desconfortáveis e sem qualquer respeito pelas regras de trânsito, os lotações levavam e traziam pessoas sem fiscalização eficiente.  Lotações viraram carrocerias de caminhão adaptadas que levaram o nome de ônibus (para todos, na origem latina) com pouca evolução.  Quem precisava de transporte coletivo na Jacarepaguá dos anos 70, enfrentava o monopólio de uma empresa que ligava o bairro ao Centro.  O empresário com sobrenome de inseto já era conhecido como senhor absoluto das empresas que rodavam nas zonas oeste e norte. 

Veículos superlotados, engarrafamentos e passagens caras assombravam passageiros.  Na oferta de condução, havia muitos ônibus na zona sul e escassos nas periferias.  A realidade pouco mudou.  Atualmente, há a explosão dos assaltos que fazem as viagens nos coletivos, além de desconfortáveis, uma agonia.  Uma lenda falava sobre um justiceiro que fingia dormir enquanto o coletivo passava pela av. Brasil. Quando anunciavam o assalto, o sujeito se levantava dando tiros certeiros na cabeça dos assaltantes.  Então, saltava e ia pegar outro ônibus para repetir a ação.  Ou o justiceiro foi derrotado ou desistiu do serviço ou se tornou prova incontestável de que o justiçamento é ineficaz porque os assaltos em ônibus crescem nas estatísticas da combalida Segurança Pública.

        Houve algumas tentativas de quebrar o monopólio no setor de transportes do Rio.  A CTC (Companhia de Transportes Coletivos) cuja criação atribui-se ao governador Carlos Lacerda, a encampação no Governo Brizola e uma promessa de uma empresa municipal de transportes.  A CTC foi encerrada sob acusação de deficitária anos depois de sua concepção, a encampação fez os ônibus sumirem das ruas e a empresa municipal ficou na promessa de um prefeito que decretou a falência da cidade. 

        Embora Metrô e ferrovia funcionem com perfeição em várias cidades do mundo, no Rio, dizem que não dá lucro, mesmo argumento usado contra a expansão do transporte aquaviário.  Há um projeto de barcas ligando Rio-São Gonçalo e Rio-Caxias que volta e meia é falado mas nunca executado.  Outro projeto mais ousado porque implicaria navegação em mar aberto transportaria passageiros à Barra passando pela orla da zona sul.  Há quem garanta que Metrô, barcas e outras opções no setor não vingam porque donos de empresas de ônibus boicotam ou ajudam governantes na sabotagem.

        Com as acusações que dão conta da relação promíscua entre empresários de ônibus e políticos, as teorias explicando o pouco caso com os usuários se fortalecem.  É tanto dinheiro de propina que só há uma certeza: na associação entre empresários de ônibus e representantes do poder público, a ética nunca foi sequer passageira.

ônibus.jpg