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- MPB

 

         José Ramos Tinhorão, que já passou dos 90 anos, anunciou que não pretende mais escrever sobre MPB pois “essa não existiria mais”. 

De posições polêmicas, o crítico e historiador musical defendia a autêntica música brasileira rejeitando qualquer influência estrangeira que a descaracterizasse.  Por isso, criticou a “Bossa Nova”, o “Tropicalismo”, a “Jovem Guarda” e todo movimento que rejeitasse a pureza cultural brasileira.  Lembro que Tinhorão disse gostar de Gilberto Gil de “Procissão” e de Caetano Veloso de “Irene”, muito pouco em duas obras tão vastas.  De estrangeiros, recordo ter elogiado Bob Dylan. 

         O termo MPB teria surgido em meados da década de 60 firmando-se na era dos festivais.  Com um significado amplo, MPB poderia designar Chico, Paulinho da Viola, Gal Costa, Márcia, Ellis Regina, Geraldo Vandré ..... a época era de efervescência e a música nacional servia para ser porta-voz da  insatisfação ou da revolta ou da tentativa de retratar um país que passava por complicada fase política.  Rui, Aquiles, Miltinho e Magro resumiram o objetivo do grupo se intitulando MPB-4. 

         “Esta noite se improvisa”, programa comandado por Blota Júnior, retratava bem a relevância da MPB no contexto histórico brasileiro.  Vários artistas tinham que cantar uma música com a palavra que um painel indicava.  Quem apertasse primeiro a campainha, ia ao microfone e cantava.  Chico Buarque se destacava ao levantar grande torcida para que fosse o campeão do programa.

         Atualmente, quem faz MPB? A representação política não é mais tão presente na música produzida nos dias contemporâneos.  Talvez, por tal aspecto, o raciocínio de Tinhorão esteja correto.  A música deixou de ser válvula de escape da opinião reprimida, as metáforas dizendo o que não podia ser expresso com clareza.  Afinal, hoje, tudo pode ser dito mesmo que repercutindo no vazio ou sem muito significado.  No entanto, há uma resistência presente na música.  Zeca Baleiro, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Lenine, Ney Lopes, Teresa Cristina, Marcos Sacramento, Pedro Luís e uma turma que – mesmo sem muito espaço – consegue se firmar numa luta tão desigual quanto à do passado em que havia uma censura oficial.  Nos tempos que correm, a repressão globalizou, foi privatizada e usa outros poderes para impor o padrão musical.

         Os fenômenos musicais apontados como exemplo do “mau gosto” dominante não são de agora como certa parte da opinião pública acredita.  Mesmo nas fases mais criativas da MPB, houve gêneros e representantes desses gêneros severamente criticados. 

Decretar o fim das coisas é sempre precipitado.  Portanto, a MPB também não fechou seu ciclo.  Mesmo Mílton Nascimento tendo dito que nossa música anda muito ruim.  Não creio que a MPB morreu. Pelo contrário, acredito que – semelhante ao vinil – anda por aí prontinha para surpreender.