- Machado Proibidão

       

 

               O encantamento só viria ao ler “Esaú e Jacó” quando fiz vestibular (prova para ingressar na Faculdade) e passara dos 18 anos.  A história dos gêmeos antagônicos é um dos mais perfeitos romances que li e já li muito por esta vida.  Antes, de “Esaú e Jacó”, pouco me interessara pelo “Bruxo do Cosme Velho”, os textos não me eram prazerosos e, com exceção de um ou outro conto, não me ligava no carioca da Saúde, filho de mãe portuguesa com pai mestiço.  Depois dessa obra, mergulhei em “Quincas Borba”, “Dom Casmurro”, “Memórias da Casa Velha” e mais ainda nos contos e até nas poesias.

           Na breve carreira de professor, apresentei a jovens “O Alienista”, a história de Simão Bacamarte que transforma Itaguaí num inferno com seus experimentos científicos que diagnosticavam loucura em qualquer atitude.  Lembro uma turma que encenou a obra com inteligência e criatividade.  Graças a minha experiência, soube dosar Machado de Assis para que moças e moços não se afastassem dele.  Se empurrasse os romances realistas, com certeza, não se encantariam tanto.  Isso acontecera comigo- alguém que sempre teve boa relação com a leitura- imagine com gente nova que pouco contato tinha com a escrita?

        Machado de Assis é sério, complexo, profundo, recomendado para que todo brasileiro tenha orgulho de ser patrício dele.  Por isso, o que fizeram com meu conterrâneo em Rondônia é injustificável.  Não se proíbe livros, muito menos, escritos por um dos maiores escritores da nossa história.   Machado que é respeitado no mundo inteiro e cada vez mais estudado nas mais conceituadas universidades.  Machado que tem de ser lido com carinho, prazer, aliás, o prazer é o maior aliado na obra dele.  Ler Machado de Assis é ter momentos únicos de gozo com a leitura.

                Essa notícia tem um lado para se refletir: se brasileiro não lê como se repete tanto, por que livros são recolhidos? Basta deixar lá porque pessoa alguma vai se interessar em dar uma olhada naquilo.

          Ouvi falar em “balões de ensaio”.  Quer dizer, aliados da direita raivosa que tomou conta do país lançam testes para sentir a reação da opinião pública.  Assim foi naquela encenação do secretário de Cultura com citações de Goebbels e fundo musical de Wagner.  Os caras jogam isso no ar e esperam para ver.  Se a população engole, vão adiante passando do ensaio para a ação repressora de verdade.  Em nome do combate à corrupção e pela moralidade, existe uma intenção de nos empurrar censura, repressão e destruição do pensamento.

        Lá por mil novecentos e trinta e pouco, quando o nazismo começa a subir na Alemanha, alguém deve ter dito: “A minha vida não vai mudar em nada.”.  Como essa gente quebrou a cara.  Por isso, seria bom não facilitar.  Machado de Assis escreveu em Dom Casmurro:

“.......antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.”

          E ele sabia das coisas.  Tanto que ainda incomoda.