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- Jânio Quadros

        

 

 

      Alvarenga e Rachinho, paródia de “Pirata da perna de pau”, música original de João de Barro:

“A minha vassoura ia varrer toda a corrupção.

A minha vassoura, não varreu nada. Que papelão”

     Essa versão, conheci no “Som Brasil”, programa comandado por Rolando Boldrin nas manhãs de domingo.  Jânio Quadros era o alvo da sátira e estava voltando à política naqueles tempos de redemocratização, começo dos anos 80.  Um pouquinho depois, ele venceria (por pequena margem de votos) Fernando Henrique na eleição para a Prefeitura de São Paulo.  Não havia segundo turno e Eduardo Suplicy (do PT) teria dividido o eleitorado de esquerda favorecendo a vitória de Jânio Quadros.

         Nunca entendi a reverência que muitos têm a Jânio Quadros. Na infância, meus pais apoiavam Lott, o marechal adversário de Jânio, e eu era um dos poucos a circular com uma espadinha (símbolo da campanha de Lott) na camisa.  A maioria portava a vassoura, distintivo da campanha janista. Com aquela vassoura, o candidato prometia varrer toda a corrupção.  Também me intrigava o fato de Juscelino, a quem me diziam ser unanimidade nacional, ter servido para alavancar a campanha de Jânio que era contra o fundador de Brasília.

         Jânio Quadros ficou sete meses  no poder renunciando num gesto que – segundo alguns historiadores – esconderia a intenção de voltar com plenos poderes. Evo Morales ensaia estratégia semelhante. No entanto, há uma frase atribuída a Afonso Arinos, aliado de Carlos Lacerda, de que Jânio seria a "UDN de porre". União Democrática Nacional, partido conservador que estão querendo ressuscitar, serviu de plataforma para que Jânio Quadros se lançasse à Presidência. Portanto, pela frase atribuída a um ex-aliado, a renúncia não teria explicação lógica.     Na verdade, em pesquisas, descobri que Jânio incentivara a viagem do vice João Goulart que não era bem visto pelos militares.  Parece que ele pensou que os militares não permitiriam a volta de Jango que passara pela China e fora pego de surpresa pela renúncia.   O vice voltou e assumiu num regime parlamentarista.

         A renúncia de Jânio no dia 25 de agosto de 61 seria o prenúncio do golpe militar que viria em 64 e que, segundo a observação de alguns, só não acontecera em 54 porque Getúlio Vargas se matou.

         Volto ao meu espanto, nunca entendi a admiração a Jânio Quadros.  Na sua volta na década de 80, apresentava-se com fala empolada e ideias não muito compreensíveis.  Mesmo assim, tinha gente garantindo que – se tivessem deixado Jânio seguir em frente – ele teria mudado o Brasil.  

         “O Pasquim”, jornal semanal satírico, fez uma longa entrevista com Jânio que não explicou a renúncia.  No entanto, fascinou quem leu.  Eu me incluo entre os fascinados.  Afinal, naquelas páginas, havia um ex-presidente eleito que, ao voltar à cena, trazia oxigênio à redemocratização do país.

         Jânio Quadros retornou em Collor na primeira eleição direta para a Presidência depois da ditadura.  Não seria a primeira vez porque continua revivendo em outros candidatos.  Naqueles que prometem varrer a corrupção, restaurar a ética, impor padrões de ordem. 

Pior é que tem eleitor que acredita e vota nessas figuras.

PS: A foto que ilustra a crônica é de Erno Schneider