- Merecimento e meritocracia

        

 

                     Há um argumento muito usado ultimamente para defender regimes ditatoriais: “Só pegaram quem merecia.”.  Isto é, só teve direitos humanos violados quem mereceu.  Portanto, torturas, ultraje à dignidade, arbitrariedades, “excessos”, tudo aconteceu porque a vítima mereceu e, se mereceu, não há motivos para culpar os agressores.

         Mas o que seria merecer? Por exemplo, só ia para o tronco ser chicoteado, o escravo que merecia.  Por que merecia? Porque se rebelou contra o feitor, contra o senhor ou contra o trabalho forçado.  A questão não é “quem merece” mas a razão do merecimento. 

          Muitas vezes, esse merecimento pode ser interpretado como meritocracia, conceito defendido por muitos que apontam o dedo para os que mereceram a perseguição política.

         Pinochet perseguiu quem merecia.  Se a pessoa fosse a favor do governo dele, nada aconteceria.  Por isso, lotou-se um estádio de futebol com vários prisioneiros.  Todos estavam ali porque tinham opiniões diferentes.  Se pensassem igual ao ditador, estariam livres.  “Missing”, um filme de Costa-Grava narra o horror e a insensatez que foi essa situação no Estádio Nacional de Santiago.

         “Eu vivi no regime militar e minha vida nunca foi afetada. Só foi preso, torturado ou exilado quem merecia. A imprensa era livre e só censuravam quando havia abusos.  Eu trabalhava e não tinha tempo de falar mal do governo.  Por isso, nunca tive problema.”  Portanto, só sofreu nos cárceres quem mereceu e só foi censurado quem exorbitou no direito à opinião. 

         A razão de merecer o castigo pode ser desde pegar em armas para derrubar o governo como expressar verbalmente uma opinião diferente da que o regime defendia.

         Esse argumento se espalha e já serve para justificar violências que extrapolam a política. 

                  “Os dois homens estavam andando de mãos dadas, queriam o quê?”

             Alguém diz explicando porque os homossexuais foram agredidos.

                “Duas mulheres se beijando no restaurante, queriam o quê?”

                     Na década de 70, Henfil criou uma charge com diversas situações de agressão.  Um sujeito levava uma facada, outro caía com uma paulada, um outro tinha a cara explodida por um tiro e, diante de cada violência, alguém dizia: “Alguma ele fez!”.   Uma frase que se ouve atualmente quando há uma notícia de uma execução, por exemplo.  Um corpo aparece com mais de 30 perfurações à bala e lá vem a observação:

                   “Para morrer assim. Alguma ele fez.”

            Por isso, direitos humanos têm de ser para “humanos direitos”.  Embora seja complicado definir o que é um “humano direito” para merecer os direitos humanos.   Se o sujeito merecer o flagelo, quem defender que essa pessoa não pode ser torturada, massacrada ou executada, estará defendendo bandidos. 

Quem vai avaliar se a pessoa merece ou não? Qual o critério para se decidir o merecimento? 

         São perguntas que provocam angústia nestes tempos que se anunciam sombrios quando, cada vez mais, será difícil distinguir merecimento de meritocracia.

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