- O goleiro argentino

 

     Fascínio tenho por goleiros e, mesmo sabendo que jogar na linha dava maior projeção, sempre me apresentava para ocupar a posição nas peladas de infância e adolescência.  Nos jogos, a vaga estava garantida porque menino algum (além de mim) queria agarrar no gol. 

   O goleiro - tão estigmatizado que - Neném Prancha, lendário filósofo do futebol, dizia: ''Onde ele pisa não nasce nem grama.''.   E eu, um goleiro amador, vislumbrei a glória e o sofrimento dessa posição algumas vezes.  Lembro o sucesso de ter defendido um pênalti mas, quando engoli um frango por entre as pernas, esse fracasso passou a ser comentado com mais frequência.  Aliás, 'engolir um frango' é uma expressão humilhante para definir a falha de quem está debaixo do gol na posição solitária do futebol coletivo.

   Goleiro não pode errar porque é apontado o resto da vida pelo erro.  Barbosa, goleiro da seleção de 50 que perdeu o título no Maracanã quando precisava só do empate para levantar o campeonato, dizia que a pena máxima aqui é de 30 anos mas fora condenado à perpétua por causa do chute de Ghigia que não conseguiu pegar.  Lance que decretou a definitiva derrota nacional no que os uruguaios chamam de "Maracanazo" e lembram como se tivesse acontecido ontem. Depois veio o "Mineiraço" com 7X1 da Alemanha, na copa de 2014.

   Minha fascinação pelos goleiros fazia com que, nos estádios, grudasse o olho debaixo da baliza vendo as defesas impossíveis ou lamentando os gols marcados.

Castilho, Pompeia, Marcial, Manga, Ari e Gilmar.  Nomes que me empolgavam.  Alguns vi jogar; outros, ouvi nas vozes de Waldir Amaral, Doalcei Camargo e Orlando Batista (na minha opinião) os melhores locutores esportivos da história do rádio.  Depois, vieram Taffarel, Chilavert e posso citar até: Vítor, Felipe, Marcelo Grohe, Julio Cesar e Jefferson. 

   No entanto, meu goleiro inesquecível é Carrizo.  Amadeo Carrizo, argentino que esteve no Brasil para disputar a Copa das Nações, torneio que reuniu Brasil, Inglaterra, Portugal e Argentina. 

   Nossa seleção parecia destinada a ser campeã depois de uma vitória avassaladora de cinco a um contra os ingleses.   E lá fomos nós contra a Argentina no Pacaembu, jogo transmitido em rede nacional de televisão.

           Naquela noite, naquele jogo: Carrizo agarrou tudo.  Aliás, no torneio inteiro, não levou um gol sequer.  Contra a gente, até um pênalti Carrizo defendeu. 

E, quando Servílio deu uma cabeça mortal......  Carrizo flutuou no ar defendendo a bola com apenas uma das mãos.  Até hoje, juro que Carrizo ficou segundos parado paralelo à grama.

           O Brasil perdeu de três a zero mas eu não sofri porque torcera pela Argentina.  Ou melhor, por Carrizo, o goleiro perfeito. 

   Uma vez, passeando por Santelmo, bairro de Buenos Aires que me lembrou Santa Teresa, o dono de uma livraria na qual me chamara a atenção revistas antigas de futebol, me disse que Carrizo morava ali perto.  Torci para ver o goleiro cuja agilidade e talento me encantaram.  Não vi Carrizo, o responsável pelo meu pecado de infância.  O goleiro que me fez torcer pela Argentina contra o Brasil. 

           Até pensei em procurar um padre e me confessar.  Afinal, ganharia uma penitência e a absolvição.  Mas, com o atual papa, não pegaria bem buscar um confessionário católico para exorcizar o meu pecado.