- Fecha a conta

        

 

  No humorístico “Zorra”, personagem de Otávio Muller, no leito de morte, passa ao filho uma incumbência que atravessa gerações: fechar a conta bancária.  A piada me tocou porque tento fechar a conta bancária de meu pai falecido há seis meses.  O banco (um desses poderosos que comprou alguns estatais) me enche de pendências que tornam cada vez mais difícil o encerramento da conta.  Já aleguei que era por ali que meu pai recebia a aposentadoria do INSS que foi extinta ao apresentar o atestado de óbito dele.  No entanto, o banco – além de apresentar exigências – enviou correspondência avisando que a conta pode ficar negativada.  Isto é, não encerram a conta e vão cobrar por ela.

    É claro que precauções devem ser tomadas, no entanto, mesmo sendo um cidadão que não teve nome incluído em nenhuma dessas operações que sacodem a mídia, sou um suspeito.  Pior, em tempos de neoliberalismo, as organizações privadas deveriam dar o exemplo de ser contra a burocracia.  Afinal, burocratas são associados aos órgãos governamentais.  Principalmente, em governos que se dizem socialistas ou simpáticos aos sistemas de esquerda.

         Certa vez, um cidadão assumiu um ministério com a missão de acabar com a burocracia no Brasil e até tentou.  Porém, a máquina burocrática parecia mais forte e muitas conquistas do Ministério da Desburocratização caíram no vazio.  É verdade que atualmente há avanços consideráveis.  Nos cartórios,  já se consegue alguma coisa pela Internet e há o reconhecimento digital de firmas, o que, para quem viveu a ditadura dos carimbos, significa um passo à frente inimaginável.

         Dizem que a burocracia seria uma marca da cultura brasileira, herança da colonização portuguesa que, volta e meia, citam para justificar nossos defeitos.  Mas por que  isso ainda não foi superado? A desconfiança continua nos cobrando cópias autenticadas, certidões inúmeras, averbações, atualizações, etc.   Tudo a alto custo, pago em dinheiro vivo porque cartões (débito ou crédito)e cheques são descartados.

         Até Vinícius de Moraes lançou mão da metáfora da burocracia ao dizer no “Samba da Bênção” que só acreditaria em outra vida se apresentassem  a certidão assinada por Deus com firma reconhecida no cartório do céu.

         Enquanto a conta não fecha, penso na piada do programa humorístico e projeto a possibilidade não muito improvável de um encerramento de serviço bancário ser tarefa para muitas gerações.  Mesmo que a conta esteja zerada e nada renda ao banco, é preciso preservar a tradição de nunca facilitar a vida do brasileiro.