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- Fantasma de Niterói

 

      Cheguei em Niterói para morar numa república de estudantes num prédio perto do Campo de São Bento, na Gavião Peixoto, e só quando me estabeleci no quarto, avisaram que o local era mal assombrado.

- Dizem que o cara se matou bem aqui. - disse um colega.

- Por isso, o quarto está vazio. - falou outro.

      A verdade é que eu não tinha mais como fugir e meu novo lar ficou sendo o quarto com assombração.  Aliás, o apartamento inteiro parecia do além.  Velho, espaçoso demais e com um eco fantasmagórico. 

      O pessoal que morava comigo voltava para suas cidades nos finais de semana me deixando lá sozinho.  O apartamento parecia maior com um único morador. 

      Numa dessas madrugadas solitárias, acordei sobressaltado.  Um ruído atravessava o apartamento e lembrei a recomendação de minha avó: "Em casos de fantasma na espreita, deve-se acender a luz.".   Meti a mão no interruptor e a energia faltou.  Ainda não era a concessionária atual, mas o serviço era tão péssimo quanto.  Os apagões se repetiam principalmente em madrugadas chuvosas quando o vento assovia forte.  Confesso que senti um arrepio.  Na república, não havia vela, coisa que só em casas estruturadas existe.  Muito menos lanterna.  No escuro, fui tateando em direção à varanda, local que me pareceu mais seguro porque eu veria a rua onde sempre se pode observar alguma viva alma.  No entanto, tudo deserto.  Até o bar que ficava perto causando reclamação por causa do barulho, fechara.  Naquela madrugada, se existia fantasma no apartamento, eu seria testemunha de sua aparição porque me tornara refém do mistério.

      Rezei as orações das quais me lembrava e o dia amanheceu sem aparições.

      Na segunda-feira, meus colegas queriam saber como fora o final de semana solitário.

- O fantasma apareceu. - informei.

- Não é possível.  - todos falaram ao mesmo tempo num misto de ansiedade, medo e curiosidade.

- A alma me disse que, se o apartamento ficar vago nos finais de semana, fará uma desapropriação em nome dos fantasmas sem teto.  Diz que tem uma porção por aí.  Com casas cheias, precisam procurar as vazias porque fantasma não gosta de conviver com gente.

      Não vou revelar onde era o apartamento para não desvalorizar o imóvel.  O importante é que jamais fiquei de novo sozinho nos finais de semana.  O grupo, acreditando que gente espanta fantasma e com medo de perder a república antes de terminar a faculdade, lotou o apartamento e minhas madrugadas nunca mais foram solitárias.