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- Dom Hélder e TFP

        “Tradição, Família e Propriedade” é uma entidade civil fundada por um católico ortodoxo que chegou a ter mandato parlamentar na década de 30.  TFP, sigla do grupo, era muito atuante nos anos do regime militar contestando o comunismo, a maçonaria e a liberdade de costumes

 Nas ruas, ficavam em pontos de movimento com estandartes vermelhos, vestidos de terno e oferecendo um abaixo-assinado que seria entregue a alguma autoridade para acabar com alguma ameaça à formação cristão brasileira.  

Na minha infância, havia uma feira-livre dominical na Praça Seca, em Jacarepaguá, onde, volta e meia, a TFP estava lá.  Certa vez, pediram assinaturas contra os “bispos comunistas” infiltrados na Igreja Católica do Brasil.  Um deles era Dom Hélder Câmara que, segundo a TFP, pregava a subversão. 

Dom Hélder Câmara foi um líder católico bem conceituado no Brasil e no mundo.  É dele a ideia da “Feira da Providência” e o lema: “Ninguém é tão rico que não precise de ajuda. Ninguém é tão pobre que não possa ajudar.”   Sacerdote que não podia ter o nome citado na imprensa por causa da censura (Luiz Fernando Veríssimo conta que teve uma crônica vetada num jornal porque falava de Dom Hélder), o “bispo vermelho” - como era chamado pelo pessoal da TFP – teria dito que Jesus amava demais seus filhos para querer vê-los na miséria.  Esse era o motivo da revolta dos católicos tradicionais. Por isso, acusavam Dom Hélder de comunista e pediam assinaturas para o abaixo-assinado que seria entregue até no Vaticano para banir o comunismo da Igreja.

Dom Hélder Câmara teria sido indicado para o Nobel da Paz e, por questões políticas, não levou.  Hoje, dá nome a uma avenida na zona norte do Rio onde está localizada a sede da universal de Edir Macedo cujos membros sempre se referem ao endereço como “a antiga suburbana”.   Inacreditável, ainda hoje, mesmo com o país em plena de democracia, ainda há quem proíba a menção ao nome de Dom Hélder Câmara.

        “Tradição, Família e Propriedade” perdeu a força do passado e outros grupos católicos surgiram com mais prestígio.  No entanto, a mentalidade religiosa fundamentalista continua cada vez mais forte.  Vive-se um moralismo exagerado no país com caça a diversas taras que ameaçariam a família brasileira.  Em nome dessa salvação, surgem salvadores que prometem colocar Deus acima de tudo como os velhos nazistas.  Há quem tenha medo de, de repente, dar de cara com estandartes vermelhos sob os quais homens de terno e gravata peçam assinaturas contra sacerdotes comunistas.  Igual à TFP dos anos 60 naquela Praça Seca onde morou um menino que não existe mais.