Crise sem fim

 

      Quando menino, minha mãe dizia: "Não sei onde vamos parar.", frase que também escutava de minha avó.  Ambas diziam isso quando sabiam dos preços no armazém, precursor do supermercado.  Meu pai garantia que estavam querendo acabar com o país e culpava Juscelino pelo descontrole econômico do Brasil.  Esse relato mostra os meus primeiros contatos com a crise que, para mim, se materializava no pirulito de uma carrocinha da Kibon.  No início, conseguia comprar o produto com uma moedinha, depois, só com uma nota.  Que inveja tinha dos garotos das revistas em quadrinhos (todas americanas) que compravam tudo com moedas.  Só vim a usar moedas com estabilidade já adulto na implantação do Real.  Moedas que o pessoal dos Estados Unidos usava até nos telefones públicos, coisa rara cá no Brasil também.  Hoje, esmagados pelos celulares.

      Nunca testemunhei o país sem crise.  Passei pela crise do Petróleo cujo preço estava alto e nem imaginava que veria petróleo em crise por causa do preço baixo.  A inflação era a grande vilã que encarecia os livros, a carne, o arroz, o aluguel e tudo que se movia ou era imóvel.  O dólar alto produzia crise e, quando ficou no mesmo patamar da nossa moeda, diziam que precisava subir para favorecer nossas exportações.  Com o dólar baixo, as indústrias não faturavam e demitiam os funcionários.  Sempre aparecia algum empresário falando em crise por causa do dólar em baixa que só favorecia o rico que bebia uísque importado.  O dólar subiu e o preço do pão foi junto porque o trigo é importado.  O rico continua bebendo uísque se gostar, já a classe média e o pobre que se virem para ganhar o pão de cada dia.

      Já vi o país até tranquilo com brasileiros gastando em supérfluos, viajando ao exterior e investindo no bem estar.  No entanto, eram situações que, segundo analistas, precediam a crise que iria vir.  Nossos momentos de felicidade eram 'bolhas' prontas para estourar.  A crise nunca foi embora ou nos atacava ou nos rondava ou estava do nosso lado aproveitando um momento de descanso. 

      Agora, a pandemia nos mergulha numa crise sem precedentes.  Quer dizer, é o que dizem da atual crise, mas já ouvi o mesmo em muitas outras.  O Governo garante que vamos retomar o crescimento econômico que estávamos ensaiando antes do Covid-19.  O pessoal que não apoia o Governo diz que – antes da epidemia – o que havia era prenúncio de crise

            A crise está aí e não irá embora tão cedo. 

            Resumindo: continuamos em crise.

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