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-Crise

 

       No final da década de 70, vi uma peça de Maria Adelaide Amaral sobre jornalistas à beira da demissão por causa de uma crise econômica.  Um tempo depois, entrei para a profissão e fiquei familiar de demissões em massa cujos apelidos eram “navio”, “passaralho”, “bateau mouche” e outros tantos. 

     Havia sempre uma ameaça de demissão pairando no ar e a gente torcia para não estar na lista.  A ordem era “enxugar a máquina” ou “cortar gastos” sem critérios compreensíveis para a demissão.  Se o funcionário era competente, preparado, talentoso... nada disso contava.  A ordem era demitir e, de preferência, quem tinha maior salário.  E os salários nem eram tão altos assim.

        Já vi crise do petróleo com preço alto e, depois, porque o preço caiu.  Na época da inflação, diziam que, acabando a inflação, o país iria deslanchar.  A inflação acabou e não havia liquidez.  Isto é, sem inflação, o dinheiro não circulava e, sem dinheiro, não se contratava.  A culpa era da liquidez e não mais da inflação.  Aliás, a inflação castigava.  Lembro aos que pedem a ditadura de volta que, no tempo dela, havia um ministro considerado gênio (depois, ficou amigo do PT) que reajustava a gasolina na calada da noite, toda noite. 

        As crises passam mas o discurso do gestor da crise continua.  A ordem é não gastar e demitir porque a folha está inchada. Ninguém se toca que, por não gastar é que as administrações levaram a Saúde Pública à falência junto com a Educação Pública e com a Segurança Pública.  Nas crises, os gestores aparecem como salvadores quase messiânicos que, ao prometer a redução de custos, vão levar o negócio adiante. 

        A justificativa para a demissão é nobre porque se demite 200 para preservar o emprego de 100.  Na década de 70, um dos maiores jornais do país, demitiu centenas de funcionários com tal desculpa.  Décadas depois, faliu e deixou um rastro de desempregados.

        As crises vão e voltam mas o discurso dos gestores continua o mesmo.  A salvação é a demissão, o desemprego, o corte de investimentos, a redução dos custos.  Só acredito que a demissão é a saída única e definitiva para vencer a crise no dia em que um desses gestores se demitir para cortar custos e enxugar a máquina.