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- Comissão de Frente

       

 

 

    Era um dia de plantão de carnaval e – no caminho da rádio -eu  andava pela Rio Branco onde desfilavam escolas de um grupo sem o glamour do Especial quando passou Manguinhos.  A Comissão de Frente era formada por mulheres com vestidos sóbrios e homens de terno e gravata, todos agradecendo os aplausos da plateia.

        O encantamento com a Comissão de Frente foi instantâneo e parei para ver seus integrantes orgulhosos pedindo passagem para a escola.  O grupo representava o orgulho de pertencer ao local onde a agremiação se formara e pedia licença para mostrar a criatividade da comunidade que, naquela época não se chamava assim.  O radialista que sempre admirava a bateria e a Velha Guarda, bateu palmas para a ala que antes não chamara sua atenção: a Comissão de Frente, a ala representante do orgulho de pertencer à gente que formava a escola. 

        Atualmente, as Comissões de Frente têm outra simbologia difícil de analisar.  Uma dança criativa com inovações cada vez mais variadas surpreendendo o público. 

        Concordo que o desfile mudou.  Não há mais o samba minucioso de Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira e a atenção se volta para as Rainhas de Bateria, mulheres de corpos perfeitos malhados em academia senão turbinadas nas lipos.   E, embora não seja saudosista daqueles que acham os coretos com morcegos e bate-bolas a representação mais autêntica do carnaval quando os subúrbios tinham um encanto que o tempo atropelou, sinto falta daquela festa. Vivi numa Jacarepaguá ainda sem o título de Zona Oeste que fez o bairro ficar mais com cara de Barra da Tijuca.  Aquele pedaço de praia que me banhava lá para os lados do Postinho quando Postinho significava muito mais que um simples Posto de salva-vidas: era o Point que a gente chegava descendo do Cascadura-Barra. 

        De repente, descobri que sou de um tempo quando as Comissões de Frente desfilavam na Rio Branco com orgulho aristocrático,  Jacarepaguá não era Zona Oeste e os carnavais tinham um tom mais contestatório.

        Não, o carnaval não era melhor.  Apenas desperta lembrança.  Em mim, é claro.  Mas....  se eu não desabafar, aí é que ninguém vai saber mesmo.