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- Godard e outros filmes.

        

 

    Godard me parecia chato mas cadê coragem para assumir isso? Tinha de ficar calado no Museu da Imagem e do Som ou no Paissandu, cinemas nos quais passavam filmes cabeça para uma plateia deslumbrada com tanta genialidade.

          Nada entendi de “Acossado”, mas balançava afirmativamente a cabeça quando diziam: “Aquele final, hein? Que porrada.”.  Para mim, o final tinha sido um alívio porque o filme terminava, mas havia alguma coisa ali que era contundente e eu não entendera.

         Na década de 80, Brasil já democrata, um filme de Godard seria censurado por ofender os valores cristãos.  “Je vous salue, Marie” contava a história de Maria, funcionária de um posto de gasolina, que, grávida de José (um taxista), é acusada de traição.  Adaptações da vida de Cristo há inúmeras.  Já vi peças nas quais Jesus é um favelado, um mafioso e vai por aí.  Portanto, nada de extraordinário acontecia no filme, mas houve uma reação exigindo que fosse proibido no país.  Na faculdade em que eu estudava, passaram o filme na quadra.  Uma cópia em francês com legendas em italiano.  Veio gente de todo lugar ver uma película que já não se entenderia em português.  A sessão teve uma lotação nunca vista. 

        De vez em quando, surgia um desses gênios elogiados que eu não conseguia ver graça.  Peter Bogdanovich, por exemplo, apareceu com um filme comédia pastelão que imitava antigas gags de Jerry Lewis.  No entanto, o pessoal via coisas ali que eu nem desconfiava que pudessem existir.  Era a tal da “leitura” da obra que só com muita observação poderia ser percebida.  Ainda quis me enturmar dizendo:

     “É uma exaltação da comédia americana e seus valores.”

       Porém, Edinho, um especialista em cinema, me olhou com certo desdém e disse:

     “Pelo contrário, é a negação de tudo isso.”

        Realmente, eu não tinha entendido porra nenhuma.

        E toma Bergman, Passolini, Cinema Novo brasileiro.  Alguns até gostava.  Há filmes de Glauber Rocha que aprecio.  Outros de cineastas tão conceituados, revi para tentar gostar e nada.

        Agora mesmo, assisti ao “O irlandês” de Martin Scorsese.  Para mim, um filme longo demais com cenas desnecessárias e, em alguns momentos, ininteligível.  Entretanto, só tenho escutado elogio.  Até os poucos críticos cinematográficos que restaram elogiam a produção.  

        Portanto, ainda continuo meio à margem do bom gosto cinematográfico.    Talvez, não saiba analisar como se deve.  Talvez, o tempo tenha me feito ainda mais fechado para a autêntica e talentosa linguagem do cinema.  

De qualquer maneira, vou continuar na plateia, quem sabe, um dia, acerto?