- Cine Ypiranga

                  

 

        O Cine Ypiranga era um poeira na Praça Seca, Jacarepaguá; nome que se dava aos cinemas vagabundos onde bagunceiros e duros iam ver filmes. 

Era um tempo em que as salas de exibição mais elegantes tinham a grife de Bruni, Metro e ficavam distantes da Praça Seca, numa Jacarepaguá classificada de zona rural.  Portanto, longe de ser a atual zona oeste colada à Barra.

        No Cine Ypiranga, na bilheteria, ficava uma mulher que não me lembro de ter visto em outro lugar a não ser por detrás daquele vidro.  Ela pegava o dinheiro, devolvia a entrada e parecia suspirar com tristeza. O dono marcava presença na porta tentando barrar  estudantes que pagavam meia.  Um homem que fumava charuto e cujo sotaque o classificava como turco.  Acredito que deveria ser árabe (com certeza, libanês) e precursor dessa rejeição que os produtores culturais e sertanejos têm pela meia-entrada.  Se a caderneta era válida até março e a gente estivesse no meio desse mês, o desgraçado nos barrava alegando que - no dia primeiro de março - a validade do documento expirara.  A primeira alegria: vencer o dono do cinema.

        A poltrona do Cine Ypiranga era de madeira e a sala de projeção muito grande.  Na tela, passavam filmes que se perderam no tempo.  'Maciste contra os homens toupeira', por exemplo.  Essas histórias faziam sucesso com atores de corpo sarado e de uma força física inacreditável.  'Hércules e Sansão contra os hunos', era outro de êxito.  Películas que misturavam mitologia grega com personagens bíblicos e povos bárbaros.  Dizem que Felini gostava de se inspirar nessas produções italianas.  É verdade.  Houve um tempo no qual se assistia a filmes que não tinham origem apenas nos Estados Unidos.

        O Cine Ypiranga foi demolido antes dos cinemas de bairro virarem templos.  No lugar dele, subiu um supermercado sem o charme dos mosqueteiros, cowboys e outros heróis ou vilões.  Sem o glamour porém - talvez - mais útil.

        O turco não existe mais, a mulher da bilheteria; li no obituário de um jornal que morreu.  A última vez que vi uma sessão no Cine Ypiranga lembro que saí do cinema e senti muito frio.  Era uma dessas noites de inverno de Jacarepaguá antes da explosão imobiliária.  A Praça Seca me pareceu incrivelmente triste.  Na época, não me dei conta, mas hoje tenho certeza de que era a melancolia pelo pedaço do bairro que estampava o fim sem nos dar o direito de retornar na próxima sessão.