- Casamento do Arnaldo

 

          “Ele” lembrava bem o acontecimento que foi o casamento do Arnaldo, uma celebração hippie nos tempos quando a caretice imperava nesse tipo de cerimônia.  Com roupas estampadas, flores na cabeça; o casal Flora e Arnaldo compunham  visual que, naqueles anos, chamavam de psicodélico. 

          Arnaldo defendia o amor livre (sexo antes do casamento), contestava a guerra e pregava o poder para a juventude.  Afinal, o Brasil era um país com muitos jovens e deveria ser terra da juventude que brilhava na música e nos programas de rádio e tevê.

          Com uma mochila nas costas, Arnaldo percorreu o Brasil e pulou a fronteira para a Argentina, aquele país cuja capital era considerada europeia e ainda não fora invadida pela classe média brasileira. 

          Arnaldo mergulhou nas drogas sintéticas e naturais.  Corria lenda que teria estado em Woodstock, festival icônico que “ele” só vira em filme num cinema da Cinelândia, quando aquela praça tinha cinemas. 

          Numa dessas sessões de Rock n roll, Arnaldo conheceu Flora com quem se casaria numa cerimônia que abalaria Jacarepaguá, bairro que poderia ser considerado tradicional porque mais perto da zona norte do que da sul onde diziam rolar pensamentos mais abertos.   

          Uns apoiaram, muitos criticaram e “ele” ficou numa posição difícil de se definir.  Apreciava Arnaldo, mas não concordava com aqueles exageros.  Além do mais, era chegado à música brasileira e o fanatismo de Arnaldo pelas músicas em inglês não agradavam muito a “ele” que era mais chegado ao protesto das músicas nacionais.

          Que fim levou Arnaldo?  “Ele” conta meio sem jeito que o ex-hippie se tornou um direitista furioso acursando a esquerda de ser o mal do mundo.   Arnaldo apoiou Maluf contra Tancredo, Collor contra Lula e seu último voto foi para Bolsonaro.

               A última vez que ele viu Arnaldo, o cara bateu a mão no peito e declarou que o direitista era seu candidato do coração.  Na verdade, queria era um general com bastão de comando fechando Congresso, Supremo e Imprensa.  Já que não era possível, ficava com um capitão, patente inferior, mas era o que se tinha.

          Quem viu o casamento de Arnaldo naqueles anos loucos, não acredita.  Flora se diz não tão radical assim.  Até aceita partidos mais liberais.  No entanto, vai de verde e amarelo nas passeatas e apoia o marido que vive nas redes sociais clamando para que os militares tenham brios varrendo do país as ameaças contra a família e seus valores morais.  Para Arnaldo, há um conspiração esquerdista para estabelecer o homossexualismo como padrão de conduta.

            Ah! E também acusa aquela emissora de lixo.

             Arnaldo mudou.  Por isso, nunca se deve perguntar quando foi que o brasileiro virou um chato conservador.  Já era assim embora disfarçado naqueles ideais que serviram de bandeira para o casamento do Arnaldo.