Leia

 

 

 

 

 

- O cafezinho

        

     Seu Jurandir rodava a empresa com um carrinho repleto de garrafas térmicas.  Era o cafezinho servido por volta das 10 e pouco da manhã e quatro e tanto da tarde.  Os funcionários paravam, conversavam enquanto o copeiro enchia os copinhos.  O tempo passou e instalaram máquinas nos corredores para o café que era chamado de expresso. Talvez, porque saísse rápido e teria de ser bebido idem para todos voltarem logo ao trabalho.

         Havia uma piada sobre um leão que entrou numa repartição pública e foi comendo os funcionários.  Só foram notar algo estranho quando a fera devorou o rapaz do cafezinho, o único servidor a fazer falta.

         O cafezinho sumiu.  Aquele coado cuja máquina ficava visível nos bares junto com os açucareiros atraindo inúmeros fregueses, aquele servido em xícaras, se tornou raro.  Em muitos locais, havia um balcão só para o cafezinho.  Era para ser tomado celebrando encontros, discutindo problemas ou solitariamente enquanto se pensava. 

          Cafezinho já foi sinônimo de hospitalidade.  Certa vez, ouvi Martinho da Vila falando que, nos morros de antigamente, se alguém estivesse de visita não saía sem um café.  Era o acolhimento, o aviso de que a pessoa era bem-vinda.  Tal costume era espalhado em todos os lares.  Um copo d’água e um cafezinho não faltavam para quem batesse na porta.  É certo que ainda não se vivia cercado de grades e de medo.  Talvez, por isso, a nostalgia do cafezinho seja mais acentuada.  O líquido fumegando numa xícara representa um período feliz no qual se podia expressar a solidariedade por uma pessoa ou a satisfação de receber alguém.

         Além da xícara, tomava-se café no copo – máximo da informalidade – ou na caneca, se fosse com o escudo do time, representava a autêntica alegria por ingerir a bebida.  Café já significou competência quando se dizia que alguém poderia realizar a tarefa porque o tinha no bule. 

Na canção “El último café”, interpretação primorosa de Suzana Rinaldi, é o momento da separação, do amor terminado quando a única saída é tomar o café definitivo dos que se amaram um dia, mas não se vão reencontrar.

         Nas aulas de francês, aprendia-se um poema de Jacques Prévert sobre alguém que via a pessoa amada pegar a xícara, encher de café, misturar com o leite, mexer e ir embora definitivamente.

         O cafezinho tem histórias e faz falta.  Talvez, numa época com tantos movimentos de resgate, a volta do cafezinho tenha espaço.  Claro que não haverá pessoas enchendo as ruas com palavras de ordem e cartazes.  Porém, quem sabe uma agitação nas redes sociais?  O cafezinho tem de voltar aos bares, aos botequins, aos restaurantes até sofisticados.  Abaixo o café de máquina porque o café de coador tem mais e dá mais gosto.

         Se o movimento pela volta do cafezinho der em nada e acabar em pizza.  Na trincheira, estarão os admiradores do cafezinho vencidos é certo.  Com um gosto amargo de derrota que nada se assemelha ao sabor do café.  Mas, com a consciência do dever cumprido.