Leia

          

  - Bode

 

          Desde menino, admirava o cavanhaque, aquela barbicha embaixo do queixo que, no meu caso; gostava de unir ao bigode.  Muita gente se confunde na pronúncia dessa palavra dizendo ‘calvanhaque’, vocábulo de origem francesa inspirada num general cujo nome era Louis Eugène Cavaignac.  Ele gostava de usar a barba aparada desse jeito e a barbicha levou o nome do general. 

Gente famosa que usou cavanhaque lembro Luiz Vieira, compositor e poeta fabuloso.  Ivan Lins usou também e o Gilberto Gil, no início de carreira ostentava um cavanhaque volumoso. 

Na minha primeira tentativa de usar um cavanhaque, sofri frustração.  Adolescente com pelos raros que rapava constantemente com a ilusão de que ficariam mais fortes; cultivei um cavanhaque e, quando andava pelas ruas de Jacarepaguá; um grupo fez: “Mé!! Mé!!”  Claro que fiquei furioso mas não tinha como reagir porque eram uns cinco, um pessoal do IPASE sempre disposto a comprar briga com quem não fosse da tribo.   Segui meu caminho engolindo aquela comparação humilhante: por causa do meu cavanhaque, me chamaram de bode.

            Bodes têm cavanhaque e, nós; os homens, quando queremos nos enfeitar com essa barbicha corremos o risco da comparação com o caprino.  Mas qual seria o problema de ser comparado a um bode?  Bode tem chifres e homens (não todos) têm horror a chifres.  Bodes sobem morros com agilidade e têm um jeito de correr que - só perde em elegância - para os cavalos.  É claro que – quando morrem – podem virar buchada de bode, prato que – no sertão – adoram servir a políticos.  Mas- além de virar buchada – qual seria o inconveniente de ser comparado a um bode?  Existe o inconveniente de ser um bode expiatório, pessoa a quem se jogam culpas que não lhe cabem.    Mas fora o bode expiatório, a buchada de bode e o bode com significado de mau humor; não vejo inconveniente em ser comparado a esse animal cuja boca é tão apertada que, quando querem dizer que algo está perfeito, dizem: “Justo que nem boca de bode.”.

                Ainda uso cavanhaque, adorno que considero bonito.  E – aos que fizeram ‘mé!’ para mim quando saí com meu projeto de cavanhaque na adolescência.    Muito obrigado porque vocês me deram a chance de escrever uma crônica sobre bode.   Logo num dia quando eu estava num bode tremendo sem imaginação para escrever coisa alguma.