- Vidas importam

       Quando alguém diz que é apolítico e que tem como partido o Brasil, aguarde que vai emendar

           “É preciso deixar o presidente trabalhar.”

             Na opinião dele, político é o outro, ideologia tem o outro porque ele possui a pureza dos que não se deixam contaminar por partidos ou ideias.  Apoiar o presidente seria pensar no bem do país, portanto, ser de direita e concordar com as ações arbitrárias do Governo é não torcer contra o Brasil.

           A mesma posição tem quem, diante de um protesto contra o racismo, detona:

              “Por que vidas negras importam? Toda vida importa!”.

          Na verdade, o direitista e racista envergonhado não admite que acha certo a Polícia disparar 70 tiros dentro de uma comunidade matando um menino negro.  O que ele não concorda é que só vidas negras importam.  As pessoas não teriam o direito de ir às ruas num protesto contra o policial que manteve um negro algemado sob sua perna mesmo ouvindo dele que não conseguia respirar.  Aquela cena, nada vale porque vidas brancas importam e protestar contra o assassinato de um negro seria renegar a importância de todas as vidas.

          O preconceituoso não quer ser considerado assim porque ela ou ele está acima do preconceito por ser pelo país ou por todos os tons de pele.  Por isso, argumenta que precisamos resolver todos os problemas e, depois de tudo resolvido, pensar nos direitos de negros, mulheres, favelados, homossexuais....  por que protestar contra a morte de um negro se brancos também morrem?  Por que exigir a punição do feminicídio se homens também morrem?  Quando todos pararem de morrer vítimas da violência, pensaremos em soluções dirigidas às chamadas “minorias”.

          O presidente age certo ao negar as mortes por Covid-19.  Afinal, morre-se de acidente de trânsito, de meningite, de câncer.... por que se preocupar só com uma pandemia?  Mais ainda: prefeitos e governadores superfaturaram hospitais de campanha, por que enviar verbas para esses corruptos que vão embolsar essa grana?

            Aliás, essa pandemia não existe.  É uma invenção de conspiradores que são muitos e vão desde os comunistas até os artistas que perderam a mamata com o fim da Lei Rouanet passando por maconheiros e vagabundos.  Isto porque só quem apoia o presidente é “pessoa de bem”.

          “Não sou político nem racista nem adepto de ideologia.”  Repete o apolítico e “arracista” que não vai ficar torcendo contra o país nem se importando só com vidas negras. 

Com certeza, na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler, no Chile de Pinochet, na Argentina de Videla e no Brasil de Médici tinha gente assim.  Porém, não eram fascistas, nazistas, antissemitas nem a favor da tortura.            

                            Apenas, não torceram contra.