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- Adelzon Alves

 

 

           A voz de Dona Ivone Lara cantando “Tiê” tocava no rádio avisando que começaria o programa de Adelzon Alves, o amigo da madrugada.  Enquanto outras emissoras tinham preferência por música estrangeira na programação, a maioria em língua inglesa, ou dedicavam espaço a artistas identificados com a juventude; o “Amigo da Madrugada” colocava no ar samba e veteranos. 

        Adelzon dava bom dia para quem era do dia e boa noite a quem era da noite.  Programa que começava meia-noite e se estendia até às quatro da manhã.  Naquele horário, surgiram nomes que se destacariam na música como Dona Ivone Lara e Bezerra da Silva e puderam ser ouvidos de novo artistas que estavam longe do microfone: Zé Gonzaga e Jackson do Pandeiro, por exemplo.  Aliás, às quartas-feiras, o programa era ao vivo com artistas do forró.  Jackson do Pandeiro reapareceu e, logo depois, retomaria a carreira em shows com Alceu Valença. 

        Um dia, Edson Mauro (locutor esportivo alagoano de muito sucesso no rádio carioca) procura Adelzon pedindo força para um jovem que acabara de chegar de Alagoas.  O comunicador ouviu e abriu as portas da gravadora para Djavan. 

Adelzon sempre soube ouvir sem se apegar a gênero embora fosse um homem ligado ao samba e às escolas que divulgava como representantes do que classifica como “o maior show audiovisual do planeta”.

        Clara Nunes cantava música romântica e Adelzon Alves deu uma virada na carreira dela ao apresentá-la a Candeias e outros tradicionais sambistas.  Na época, diziam que cantoras não vendiam discos e esse conceito errado foi desmontado com Clara Nunes cantando “Conto de areia”, “Canto das Três raças e um samba comprando o azul da Portela com o manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.  Talvez, tenha sido a maior mudança na carreira de uma artista e, como toda transformação, exigiu talento da cantora e uma percepção perfeita do produtor.  Por detrás da transformação que tornou Clara Nunes uma das maiores cantoras do país, estava Adelzon Alves.

        Adelzon Alves sairá do ar (segundo aviso da EBC) em mais um golpe no rádio brasileiro. A saída do ‘Amigo da Madrugada” é a prova de que os espaços para artistas de uma música popular brasileira comprometida com a cultura ou com a realidade do país são escassos, insuficientes e incentivadores culturais estão condenados a uma solidão que vai se transformando em exílio. 

Adelzon Alves está definitivamente registrado nas madrugadas e deveria andar nas manhãs, nas tardes e nas noites.  Afinal, em qualquer horário, a música popular brasileira merece espaço.  Porém, infelizmente, não é isso que acontece.