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            -A moça e o cão

             João Carlos Viegas

       

      Na estação das barcas, volto a atenção para uma moça que desembarcou guiada por um cão. Nos tempos politicamente corretos, era uma portadora de deficiência visual que seguia com o animal indicando o caminho. Me admirou a desenvoltura do cachorro e a confiança da moça.

        Nesse instante, pensei na importância de um guia. Não falo dos guias políticos que são duvidosos. Nem dos guias religiosos que são seguidos por questões de fé. Falo daquilo ou daqueles que nos representam a segurança de que vamos chegar lá.       

Quando menino, li no Tesouro da Juventude (uma enciclopédia equivalente aos atuais sites de pesquisa: Google e etc.) que, se me perdesse na floresta amazônica, precisaria fazer o seguinte: procurar um filete de água que me levaria a um igarapé que me levaria a um rio que me levaria a um povoado. Afinal, à beira de um rio, sempre há pessoas morando, e os ribeirinhos me salvariam.

        Não, as chances de me perder na floresta amazônica eram e são remotas. No entanto, eu sei que um filete de água é o guia da minha salvação.

        Como na música dos Engenheiros do Havaí: a gente precisa de alguém que nos dê segurança. Vou além, a gente precisa de qualquer coisa que nos dê tal sensação.

        Uma estrela-guia para o viajor, como diz a oração antiga. Uma placa de trânsito. Um GPS. O endereço de um borracheiro, um guarda de plantão na rua, um professor que nos tire dúvidas, o celular de um dentista ou de um médico.

        Por isso, discordo quando dizem que os cabineiros são dispensáveis. Um elevador com um cabineiro no comando é mais seguro.

        Nós todos precisamos de um guia. Para nos situar numa cidade estranha ou para seguir em frente como a moça guiada pelo cão que vi na estação das barcas.

        Ela e o cão me passaram a certeza de que chegariam ao destino planejado e - ao olhar a desconhecida se afastando - me senti muito mais seguro.