Leia

                         

 

 

 

 

 

 

- A incapacidade de conviver com opiniões diferentes.

       

 

      O romance “O Estrangeiro” de Plínio Salgado me encantou.  Depois, soube que Plínio Salgado liderou o movimento Integralista, uma paródia do nazifascimo em terras brasileiras.  Senti vergonha por ter gostado do livro escrito por alguém cujas ideias eram opostas às minhas.  Mais constrangido fiquei ao ler uma declaração de Jorge Amado, um dos meus ídolos, sobre a obra de Plínio Salgado.  Hoje, acho que “O Estrangeiro” é um bom romance do modernismo brasileiro com uma carpintaria contemporânea e uma linguagem bem construída.  A literatura de Plínio Salgado nada tem a ver com sua ideologia política que continuo rejeitando como também não aceito a ideologia de Jorge Amado que, na minha opinião, deixou obras da maior importância para a literatura.  O nazifascimo de Plínio Salgado e o comunismo de Jorge Amado, ideologias que rejeito, não me limitam diante do que (em literatura) os dois produziram.  Jorge Amado em maior número.

        Classificar um autor pela posição política dele é desconhecer que a arte está acima de uma escolha pessoal.  O acorde de um violão não é de direita nem de esquerda, a interpretação num palco e o passo de um balé, idem. 

 Chico Buarque venceu o “Prêmio Camões” (a maior honraria para um escritor em língua portuguesa) e alguns brasileiros ficaram descontentes porque o autor apoia o PT.  Inclusive, o presidente da República se recusa a assinar o documento da premiação.  O reconhecimento internacional de um brasileiro deve trazer orgulho ao país, mas cismaram com o Chico e espalharam até que teria comprado as músicas que compôs.   O que é difícil porque seriam necessários inúmeros compositores talentosos para a venda de tanta   música de qualidade.

Não acho que Chico ou qualquer pessoa esteja acima das críticas.  O que não suporto é intransigência, postura atualmente espalhada no Brasil. Parece que é preciso marcar território com raiva e rancor até nos momentos mais impróprios para exibir esse negativismo perverso em nome de uma posição política.

        O PT, para mim, foi uma desilusão.  Lula, para mim, errou quando, na Presidência, repetiu o neoliberalismo tucano.  Corrupto, para mim, tem de ir para cadeia e devolver com juros o que roubou.  Chico Buarque, para mim, é um dos maiores compositores da nossa música. Sem dúvida está ao lado de Noel Rosa, Ary Barroso, Antônio Carlos Jobim, Dolores Duran......  apoia o PT, exaltou Fidel...... paciência.  Muitos apoiam Bolsonaro e não vou sair por aí xingando essas pessoas ou desmerecendo o trabalho delas.

E mais: desconfio de quem usa a ofensa pessoal ao defender uma ideia. Geralmente, não o fazem por convicção política mas por não aceitar quem pense diferente.  A história nos ensina que, quem não aceita a diferença, é gente muito perigosa e o Brasil tem de se precaver de gente assim.