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                                                           Poemas musicais

             

  

 

     Na Faculdade de Letras da UFRJ, Bela Josef - minha professora de literatura Hispânica - contava que Manuel Bandeira, de quem fora monitora, classificava o verso da mulher pisando alheia nos astros como o mais bonito da nossa língua. 

                     "Tu pisavas nos astros distraída...”

     Os versos são de Orestes Barbosa escritos para "Chão de Estrelas", música e interpretação de Sílvio Caldas.

        Concordo que é bonito embora ache este trecho de "Arranha-céu" também de Orestes com Sílvio Caldas tão bonito quanto:

      "‘Cansei de esperar por ela /Toda noite na janela/ Vendo a cidade a luzir /Nestes delírios nervosos dos anúncios luminosos que são a vida a mentir."

      Orestes Barbosa era carioca de classe média e morreu nos meados da década de 60 com 73 anos de idade.  Talvez, por ter sido conhecido mais como letrista; a poesia que escreveu ficou sem o aval da elite literária.

              Penso que escolher um verso como o mais bonito da música brasileira é uma tarefa impossível porque na MPB não existe apenas a perfeição de metáforas inspiradas, mas definições incontestáveis.  Por exemplo, quem ousaria desacreditar de um amor tão intenso quanto o que escreveu Guilherme Arantes em “Cheia de charme”?

            "Paixão assim, não acontece todo dia."

        É preciso segurar porque esse não se pode perder.

      Chico Buarque deslumbrou em "Construção" pelos versos terminados em proparoxítonas, isto é, palavras cujas sílabas tônicas são as antepenúltimas:

"Subiu a construção como se fosse um PRÍNcipe. Comeu feijão com arroz como se fosse MÁquina. Morreu na contramão atrapalhando o SÁbado."

         Mas também foi capaz de descrições singelas como

 "O tempo passou na janela e só Carolina não viu."

 Um jogo de palavras que se torna mais instigante ao criar o mistério de que não se sabe se o tempo passou na janela ou se Carolina ficava na janela enquanto o tempo passava.

“Simples carinho” de João Donato na voz de Ângela Rô Rô causa arrepio quando lembra que sonhando acordada dormiu com a pessoa amada.

      Não há um verso “o mais” bonito na música brasileira, porém; inúmeros e tantos porque temos Vinícius de Moraes, Mário Lago, Paulo César Pinheiro, José Carlos Capinam, Dolores Duran, Maysa, Sara Benchimol, Abel Silva, Ana Terra, Fernando Brandt e Aldir Blanc, poeta que escreveu sobre 'o torturante band-aid no calcanhar', definição exata da incerteza do tímido quando a música tocava indicando a hora de dançar contando que são dois para lá e dois para cá.

      Portanto, quem tentar achar o verso mais bonito da nossa música ficará num impasse e impasse, ao menos no que se refere ao amor, há muitos no nosso cancioneiro, palavra que deve ser usada com mais frequência por causa da onírica poesia que traduz.