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O mendigo filósofo

       

        Em Niterói, há mendigos sofisticados.  Não falo da população de rua bem organizada que faz da esmola um meio de lucro.  Grupos com crianças no colo com logística para entrega de quentinhas e trocar o dinheiro miúdo por notas de maior valor.  Em Icaraí, observei uma pedinte entregando trocadinhos para um sujeito que, de volta; deu-lhe notas de 50 e 100.  Curiosidade em Niterói são os mendigos que nada pedem e sobrevivem sei lá como.

 Na São Sebastião, bem na descida antes de chegar a Andrade Neves, mora uma mendiga com mania de limpeza.  Ela fica lá no canto dela e, com frequência, varre a calçada em volta.  Outro dia, de balde e rodo, lavava o chão com muita espuma.

Ao redor da coitada, tudo limpinho e cuidado.  Não sei qual sua história e como foi parar ali.  Toda manhã, passo e lá está a pobrezinha bem arrumada se preparando para o que suponho seja a lida.  De tardinha, quando volto, já está no cafofo ouvindo um radinho. Já me deu vontade de saber o que escutava mas fiquei sem jeito de incomodar.  Funcionários de um posto de gasolina me contaram que, à noite, a mulher dorme debaixo de uma aba de papelão e um cão guarda seu sono.  Quando chove, usa um plástico para não se molhar.  Nas noites de lua cheia, nem o cão uivando para o satélite incomoda o descanso.

De todos os mendigos que conheci, o filósofo é imbatível.    Eu estudava na Universidade Federal Fluminense e ele fazia ponto na praça de São Domingos.  Diziam que já tivera dinheiro, conceito, status social.  Porém, um amor fracassado o atirou em drogas lícitas e ilícitas que sinalizaram ao abandonado o caminho do fracasso.  O maltrapilho filósofo (diziam que se chamava Joel) era de tiradas incríveis.  Certa vez, eu bebia cerveja com um grupo naquelas mesas que ficam na calçada da pracinha e ele apareceu nos olhando.  De repente, com uma voz bem colocada, disse: “Eu ainda vou virar classe média.” 

           Olhamos esperando o desfecho e ele:

“Não, não vou subir até lá não.  É que, com tanto imposto que os governos cobram, a classe média vai descer até a miséria onde me encontro.”

Uma tarde, parei na banca de jornal e um deles pendurado informava a morte de um integrante da Academia Brasileira de Letras.  A manchete era: “Morre um imortal.”.  O filósofo olhou o jornal, se virou para mim e falou:

- Eu também sou um imortal. 

TEMPO

- Não tenho onde cair morto.

         E lá se foi rindo como se tivesse contado a piada mais engraçada do mundo.