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Sobre o rés de chão de Lisboa.

       

  Mesmo sendo de uma geração massacrada pela influência britânica e americana, Lisboa me acompanha desde menino.  Portanto, chegar à capital portuguesa é mergulhar numa Lisboa imaginária onde revejo Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Miguel Torga, Eusébio, Coluna, Amália Rodrigues e – o reencontro mais emocionante – minha raiz paterna.  Talvez, Antônio Fernandes – meu avô – tenha pisado numa dessas calçadas quando saiu da Serra da Estrela para pegar um navio em direção ao Brasil.  Navio que eu torcia para ser o Adamastor, àquele citado por Noel Rosa no ‘Com que roupa?’:

“Seu português agora deu o fora. Já foi se embora e levou seu capital.  Esqueceu quem tanto amou outrora.  Foi no Adamastor para Portugal.  Pra se casar com uma cachopa.”

        Embora meu sobrenome lusitano seja o Fernandes, chama a atenção a profusão do Viegas em Lisboa.  Há um Centro Cultural Mário Viegas, um advogado Fernando Viegas na tabuleta de um escritório na Baixa..... por coincidência, herdei o Viegas de meu avô materno que se chamava João Francisco e era baiano de Alcobaça, cidade brasileira cuja homônima é famosa no mapa de Portugal.

       

        Andei de Elétrico até a Estrela e voltei em direção à Graça.  Olhei o Tejo e vi uma das luas mais brilhantes da minha vida iluminando a avenida da Liberdade que tem uma estátua onipresente do Marquês de Pombal. 

 Bebi vinho branco alentejano e comprei muitos livros na Feira Literária de Lisboa.  Achei engraçado meu filho Eduardo chamando canudo de palinha e me admirei com a empolgação de Ana, minha mulher, com a cidade visitada. 

             Em Lisboa, o táxi me levava para a Expo, região onde se realizou a Exposição Mundial de 98 e – atualmente – é um bairro movimentado da capital portuguesa.  O motorista me disse que houve uma remodelação completa na região e os ‘contendores’ chegavam repletos pelo Tejo.  Perguntei o que eram contendores e ele me explicou que eram construções de aço carregadas por navios.  “Ah! No Brasil, a gente fala container! Mania de usar palavras em inglês.”  O motorista riu e disse: “Duvido que seja mais do que aqui.”

        A observação do taxista me surpreendeu porque sempre ouvi falar que o português de Portugal é mais puro e com poucas misturas.  Mas – se era assim – foi no passado.  Hoje, se vê palavras em inglês por todos os lados e – ao menos, em Lisboa – os avisos em língua inglesa são muitos.  Não poderia deixar de ser, não é?  Afinal, o turismo é intenso no país e o inglês se impôs como idioma universal.  Então, já existem os shoppings, os City tours e – segundo um amigo português – os sítios da Internet começam a ser chamados de sites.

          A    guia do passeio à Torre de Belém diz que 200 milhões de brasileiros falam português o que deu uma força para a língua cujo país original tem 11 milhões de habitantes.  Tal observação me faz orgulhoso e também temeroso pela responsabilidade.  Cada vez mais, nós brasileiros seremos responsáveis pela língua portuguesa.  Claro que dividiremos com angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e timonenses que – segundo ouvi dizer – gostariam de falar inglês australiano.

         

                  Não acho tão difícil entender o português de Portugal.  Meu filho, por exemplo, aprendeu logo a chamar canudo de palhinha. É claro que o imperativo na linguagem do português lusitano nos dá a impressão de arrogância. “Dá-me” soa mais autoritário do que “me dá.”.   Porém, a maioria dos portugueses é gentil e não fala tão diferente de nós.  Evite garçom e moço, palavras não bem aceitas por lá. 

     Não estranhe quando ouvir alguém chamar um menino de puto ou uma moça de rapariga.  Mas de todas as palavras diferentes do português de Portugal – para mim – a mais bonita é rés do chão, uma forma poética de se chamar o piso de um prédio.

        Voltarei e tenho certeza de que sempre verei Lisboa com o olhar deslumbrado da primeira vez.  No entanto, o abraço do reencontro será tão íntimo como deve ser os abraços dos velhos amigos.