Leia

 

 

 

 

 

 

 

 

                       

 

 

 

 

                                                     

 

 

 

                                                     

                                          - Garrafa à rede

 

        O motivo do meu contato não é arrecadar dinheiro ou prometer negócios lucrativos.  Por favor, leia a mensagem até o fim.

Descobri que tenho o poder de falar línguas quando andava pela rua da Alfândega e me surpreendi com o número de orientais ocupando o comércio onde fora um reduto árabe-judaico.  Numa loja de inutilidades importadas da China, comecei a falar com o balconista na língua dele que, segundo o atendente, seria mandarim.  Na outra loja, conversei em coreano e, numa que fazia esquina com a República da Síria, em uma variação do mandarim falada em Cantão, capital de uma província chinesa ao sul do país.

        Não procurei muitas explicações para o meu novo talento embora a novidade fosse intrigante.  Na minha cabeça, já que falava, lia e escrevia várias línguas deveria aproveitar tamanha versatilidade e não me questionar.  Afinal, assim como chegara, essa estranha habilidade poderia desaparecer.  Já ouvira falar de pessoas com amnésia que recuperam a memória e, por que não o conhecimento em minha cabeça poderia se apagar como numa exclusão de arquivos que estivessem ocupando espaço demais em minha memória? 

        Passei a ser apresentado como fenômeno em programas de tevê com grande audiência e minha repentina fama me ajudou a montar uma empresa de tradução, conversação e dicas sobre qualquer língua estrangeira.  Como atualmente há muitos jogadores de futebol negociados para países com línguas pouco conhecidas, traduzo e redijo contratos em chinês, russo, ucraniano, árabe e qualquer língua eslava ou nórdica.  Certa vez, fui chamado para decifrar a origem de um doente desmemoriado em um hospital que pessoa alguma conseguia descobrir a língua que falava.  Bastou um rápido papo de contato para perceber que se tratava de um cidadão da Finlândia, país com uma das línguas mais difíceis do mundo.  Finlandês, húngaro e basco são idiomas que não se sabe a origem e eu falo os três.

        Um pastor me propôs sociedade para que me apresentasse como alguém que recebeu o Espírito Santo, segundo a Bíblia, mensageiro do céu capaz de espalhar o poder de falar línguas. Não aceitei porque ficaria preso a uma fé o que me faria desistir de projetos que tenho em mente.  Alguns até sem qualquer conotação espiritual.

        Minha preocupação agora é manter viva línguas ameaçadas de extinção.  O samaritano, por exemplo, já inseri na memória para expandir o número de falantes que são cada vez mais reduzidos.  Por isso, se você pertence a algum grupo linguístico em via de extinção, clique no ícone da garrafa e entre em contato comigo para que possa aprender a sua língua impedindo que caia no vazio de não ter sequer um falante. 

                                    Aguardo contato.