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- Dor de cotovelo.

       

 

     A música me soava estranha na voz de Jamelão ao escutar pela primeira vez “Eta dor de cotovelo dos diabos!”.  Nunca ouvira nada igual e, mais adiante, a letra suavizava: “Eta dor de cotovelo dos infernos.”.  Versos sobre alguém sofrendo com a ausência da pessoa amada, uma angústia que qualquer um olhando perceberia.  A dor de cotovelo, mesmo disfarçada num sorriso mentiroso, estampava um retrato da saudade de quem estava ausente.  Por causa dessa música esquisita, conheci Lúcio Cardim, compositor santista precocemente morto aos 50 anos a quem Lupicínio Rodrigues considerava seu sucessor nas composições sobre as dores do amor.

          “Matriz e filial” é de Lúcio Cardim mas tem gente achando que é de Lupicínio Rodrigues .

“Quem sou eu pra ter direitos exclusivos sobre ela. Se eu não posso sustentar os sonhos dela. Se nada tenho e cada um vale o que tem? Quem sou eu pra sufocar a solidão da sua boca Que hoje diz que é matriz e quase louca Quando brigamos diz que é a filial”

        Aliás, como existe o costume de se esconder os nomes dos compositores, pesquisar autoria de músicas é difícil. 

        A dor de cotovelo tem tradição na nossa música sendo cultivada por Dolores Duran, Adelino Moreira, Maysa e pode ser encontrada em várias gravações de Roberto Carlos.  Há algumas parcerias dele com Erasmo que podem ser catalogadas como dor de cotovelo, mas a música de Isolda que fala sobre um caso de amor em aberto ganha todas.  “Outra vez” com a saudade bem-vinda porque assim se sente a pessoa amada perto de novo é pregar a salvação através do sofrimento, metáfora imbatível.

        A expressão teria origem na dor que alguém sente quando bate o cotovelo, uma sensação prolongada que custaria a passar.  Outra explicação: ao se tentar sufocar a mágoa de amor bebendo, apoia-se o cotovelo na mesa do bar e, quando vem a ressaca, essa parte do corpo está dolorida.

        Lúcio Cardim gravou um LP somente e se dedicou a temática amorosa com raro senso de observação.  “Obra Prima”, na voz de Nora Ney, resume o fracasso de uma relação amorosa de forma definitiva:

“Você, obra-prima dos meus versos. Produto das loucuras que eu fiz. Levar você de mim. É muito fácil. Difícil é fazer você feliz”

Isso é que é uma dor de cotovelo dos diabos.