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                                - A noite do meu bem

         Adiléia Silva da Rocha se tornou Dolores Duran por causa dos padrinhos que eram fãs da atriz americana Dolores Moran.  Cantora elogiada por  Ella Fitzgerald, Dolores teve parceiros como Antônio Carlos Jobim e, a informação é de João Máximo, seria a cantora do “Chega de saudade” que marcaria o início da Bossa Nova ao lado de João Gilberto.  Por algum motivo, Elizeth Cardoso gravou a música com arranjo de Tom, letra de Vinícius e a batida de violão do João.

         Com Ribamar, pianista virtuoso que foi rival de Waldir Calmon (mestre do piano que deu nome a um conjunto com sucesso em boate e tevê), compôs “Ternura antiga”, uma dessas músicas que vão fundo nos desencontros do amor.

“Ai, tua distância tão amiga. Esta ternura tão antiga. E o desencanto de esperar. Sim, eu não te amo porque quero. Ah! Se eu pudesse esqueceria. Vivo, e vivo só porque te espero” 

         A pessoa angustiada com a espera tem na distância do ser amado uma relação de amizade e afirma que só vive porque espera o amor que não vem.

         Quem conviveu com Dolores Duran lembra que era uma companhia agradável mas, com problemas de depressão e amores mal resolvidos.  Chico Anysio – autor de “Filha de Chico Brito”, um dos primeiros sucessos da cantora - relembrava dias de passeio com ela em Paquetá.  Há uma foto dela em Paris que não mostra uma mulher angustiada.  Pelo contrário, parece cheia de esperança.  Mas, como não ter esperança em Paris, não é?

         Dolores Duran morreu aos 29 anos depois de uma noite feliz com amigos.  Ela chegou em casa com o dia amanhecendo, brincou com a filha e pediu para não ser acordada porque dormiria até morrer.  Tal premonição já virara canção em “Noite de paz”.

 

“Dá-me, Senhor. Uma noite sem pensar. Dá-me Senhor Uma noite bem comum. Uma só noite em que eu possa descansar. Sem esperança e sem sonho nenhum.  Por uma só noite assim posso trocar. O que eu tiver de mais puro e mais sincero.  Uma só noite de paz pra não lembrar Que eu não devia esperar e ainda espero.”

 

         Sem dúvida, Dolores Duran fica marcada na história da música brasileira com “A noite do meu bem” na letra há metáforas de união com o barco voltando ao cais e as mãos se encontrando.  Imagem perfeita da paz profunda representada por criança dormindo.  Tudo para enfeitar a noite de reencontro que parece destinada a ficar incompleta no verso final:

“Ah, como este bem demorou a chegar.  Eu já nem sei se terei no olhar. Toda ternura que eu quero lhe dar.”

         Talvez, se não tivesse morrido tão nova, Dolores Duran teria encontrado uma forma de guardar essa ternura até o dia em - quem sabe? – pudesse repartir com um definitivo amor.