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                                                 - Dedo-duro do Dops.

        A delação é malvista através da história. Judas na Bíblia e Joaquim Silvério dos Reis, na Inconfidência Mineira, são exemplos. Nos anos 60, correu a notícia de que um menino ganhara uma estátua numa república soviética porque entregara os pais ao serviço secreto comunista.  Mãe e pai teriam falado mal do governo, o garoto ouviu e, como bom cidadão, dedurou os dois.  Aquilo foi um choque. Nos lares brasileiros, as mães choravam, os pais discursavam indignados.  No comunismo era assim, o governo estava acima de tudo e a família nada valia.  A foto da estátua do menino dedo-duro chegou a ser divulgada.  Um garoto com a bandeira soviética (aquela com foice e martelo) desfraldada na mão glorificando o Estado.  Depois, houve um boato de que o garoto representava a fé nos meninos da CCCP, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e não o informante.  Teria sido uma fake news antecipada.

        Na década de 70, a má fama do entregador se espalhou.  Nas faculdades, nos bastidores artísticos, nas empresas públicas e privadas, havia sempre o zum-zum-zum de que um delator estava à espreita.  Sempre havia um fulano que seria “Dedo-duro do Dops”.  A sigla que acompanhava a acusação significava Departamento de Ordem Pública e Social, órgão do governo encarregado de prender os inimigos do regime.

        Às vezes, o sujeito ganhava fama de dedo-duro porque era antipático, tinha o cabelo cortado rente, a moda era ser cabeludo e só militares ou admiradores deles deixavam o cabelo tosado.  Em outros, a fama pegava mesmo ele sendo integrado ao visual liberal.  Numa escola de teatro carioca apareceu um sujeito com pinta de hippie cujo apelido era índio.  Cabeludo, barbudo, usava roupas despojadas e calçava sandália franciscana.  Não se sabia de onde viera nem do que vivia.  Índio falava coisas que pareciam ter algum significado filosófico ou poético.  Nas peças, fazia figuração.  Nos festivais de música, fingia tocar atabaque.  Tinha tudo para se integrar com a rapaziada.  No entanto, veio a informação de que ele estava ali para espionar e passar o que testemunhava para os militares.  Dedo-duro do Dops!! A acusação ganhou mais força quando Rogério Baiano sumiu e disseram que ele tinha “caído”, termo que designava a prisão nos porões do regime.

        Quando Rogério Baiano reapareceu contando que viajara de carona até a Argentina.  Por isso, sumira.  Já era tarde.  Índio, sentindo o clima ruim, nunca mais deu as caras. 

        Sobre Rogério Baiano, descobriram que ele ficara entocado na casa de uma tia em Niterói por causa de uma grana que devia sem ter como pagar.  A história da viagem de carona à Argentina foi para causar.  Do Índio, que descobriram se chamar Dionísio, falaram que fora visto pegando carona num caminhão na Rio-Bahia.  Para onde foi e que fim levou, não se sabe.  Porém, sofreu com a acusação de ser dedo-duro. 

Atualmente, com tanta delação premiada por aí.  Tem muita gente que pode não acreditar.  No entanto, já houve um tempo, quando a delação era rejeitada e o dedo-duro não tinha vida fácil não.