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- Censura

 

      Às vezes, ouço dizer que na ditadura não houve corrupção.  Inclusive, corre por aí que alguns ministros responsáveis por grandes obras morreram pobres porque não existia superfaturamento nas obras.  Não adianta argumentar que a forte censura impedia denúncias de corrupção porque o pessoal que é a favor da intervenção militar insiste em afirmar que não havia censura.  Então, vou dar o meu testemunho de vítima da censura.

Eram os anos 70 e me inscrevi no Festival do Colégio Pedro II junto com um parceiro que fazia a música, eu escrevera a letra. A Censura Federal funcionava no Palácio do Catete e as letras voltaram com carimbos de liberada ou vetada. A minha música foi censurada porque um verso dizia “vamos nos deitar em berço esplêndido” e a referência ao Hino Nacional foi considerada uma ‘mensagem não positiva’. Outro aluno também teve a música censurada e correu um boato de que o sobrenome dele ‘Lamarca’ teria sido responsável pelo veto.

       Não posso negar que fiquei orgulhoso aos 16 anos com música censurada. As pessoas comentavam, fui centro de conversas familiares durante algum tempo e me senti um compositor perseguido pelo regime. O papel com o carimbo da Censura Federal ficou guardado muito tempo como relíquia e, outro dia, procurei mas não o encontrei.

      Uma vez, brinquei que teria direito a indenização porque minha carreira de letrista foi interrompida pela ditadura. Talvez, se não fosse o censor ou a censora, eu poderia ser um Aldir Blanc ou um Paulo César Pinheiro, enfim, um desses letristas bem sucedidos da minha geração. Mas foi uma piada e, do INSS, vou receber a aposentadoria que tenho direito, nenhum centavo a mais. Acredito até que muitos a menos.

       A Censura Federal cortava músicas de estudantes secundaristas no Festival do Pedro II. Inacreditável que um dia este país foi assim. Mais espantoso é que exista gente acreditando que tal passado era melhor e precisa voltar para restabelecer a ordem no país. Um passado quando a letra de um estudante era censurada porque falava sobre ‘deitar em berço esplêndido’.

     Quem é a favor desse passado precisa acordar.