- Um Líbano tropical

          A dentista recebe no consultório  um miliciano que veio cobrar a taxa de proteção.  Dentista e miliciano iniciam um caso de amor e a mulher pede ao homem que mate o esposo dela.  O marido é sequestrado e aparece morto na Região dos Lagos.  A Polícia descobre a trama, prende a dentista e o miliciano está foragido.

          O que parece argumento para uma história policial aconteceu na Zona Oeste do Rio.  A dentista, além de desejar o fim do companheiro de 20 anos, queria receber a grana do seguro.  Ela registrou o desaparecimento do marido e agradeceu o apoio dos amigos e parentes no momento triste pelo qual passava. 

          No Rio de Janeiro, as milícias surgiram com a desculpa de que era preciso combater o tráfico de drogas. Por isso, cobram taxa de proteção aos comerciantes, prestadores de serviços e moradores. Afinal, sem impostos, precisam tirar dinheiro de alguma forma.   

    Em certas regiões da cidade, há uma guerra pelo domínio do território e pessoas que nada têm a ver com a disputa são exterminadas, principalmente, crianças.  Há uma teoria de que as execuções de meninas e meninos são propositais, estratégia para gerar comoção e forçar uma negociação de trégua.  O poder constituído seria obrigado a conversar com as partes em “guerra” e dividiria as regiões entre esses criminosos.  Assim, a “paz” se estabeleceria.  Essa ideia já foi divulgada pela imprensa e teria sido urdida nas prisões de segurança máxima onde as lideranças do tráfico estariam confinadas. 

          Armas, milicianos e traficantes são uma mistura que pode levar o país a uma guerra civil como a do Líbano que durou 16 anos.  Lá, havia o fator religioso que insuflava ainda mais a luta.  Aqui, embora não existam fundamentalistas islâmicos, há neopentecostais com o mesmo nível de ódio contra quem não pensa igual.   Inclusive, em algumas comunidades, traficantes que se proclamam “evangélicos” ameaçam e profanam terreiros de umbanda e casas de candomblé.  Portanto, quem garante que – nessa guerra de milícia e tráfico – o aspecto religioso fique distante?

          Disputa de território e imposição da verdade que liberta se misturariam numa guerra que pode se estender além do município carioca o que seria uma questão de difícil solução num país onde membros do poder constituído costumam questionar as instituições democráticas e até ameaçam com rupturas.

          A dentista que teve um caso com o miliciano combinando com o amante a morte do marido, meninas e meninos mortos em comunidades, trocas de tiros pelas ruas e uma incapacidade do Poder Público em se impor alimentam um discurso de ódio que só crê no aumento da repressão para vencer a violência.   

A realidade pode empurrar o país para uma situação semelhante à da guerra civil libanesa.  Não se trata de uma teoria da conspiração, basta analisar um pouco o que cerca o povo brasileiro para se temer tal futuro.  Portanto, está aí o alerta aos que vociferavam o mantra de que o Brasil poderia se transformar numa Venezuela. 

                                       Cuidado com o Líbano Tropical.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now