- Humor é rir de si mesmo

          Meu irmão e eu éramos crianças e contávamos piadas de português para nosso avô paterno que ria muito.  Nada de extraordinário se não fosse o fato do velho António ter nascido na Quinta do Fontão, Vela, Serra da Estrela, cidade da Guarda, Portugal.  Assim, contando piada de português para meu avô lusitano, aprendi que o humor é rir de si mesmo.

          Não rimos da sovinice alheia, mas do nosso apego ao dinheiro que, na nossa cabeça, é economia, pensar no futuro, etc.  Não se ri dos trejeitos do homossexual, mas da nossa identidade sexual que está bem guardada e pessoa alguma tem a ver com nossa vida.

          Por isso, o humor é tão combatido e tiranos perseguem humoristas.  Chaplin em “O grande ditador” irritou Hitler não por causa da caricatura.  Na verdade, aquele bufão interpretado por Carlitos era representação real do ridículo nazista com seu conceito de superioridade racial e o mal que espalhava.  O público não riu de Charles Chaplin, mas da descoberta de que Hitler era alguém que só merecia o lixo da história.

          Atualmente, questiona-se o humor e há críticas de que o “politicamente correto” estaria estragando o direito de rir.  Na verdade, o humor precisa de limites sim porque se fere deixa de ser humor para ser agressão.  O que se chama de “politicamente correto”, muitas vezes, é a adequação do humor a uma nova realidade.  O comportamento humano se adaptou a um mundo que se transforma com rapidez e o humor não fica à parte dessas mudanças.  Fazer humor também é perceber isso e criar dentro desse contexto.  Isso não significa limitação, mas exercício de talento.  E os bons humoristas estão aí provando que tal postura é possível sem limitar a arte de fazer rir.  Aliás, Henfil, na década de 70, transformou o urubu pejorativo com que os adversários chamavam o torcedor rubro-negro em símbolo do Flamengo.  O Urubu está aí até hoje e não sofre acusação de ser politicamente incorreto.

          Humor é rir de si mesmo sem que isso signifique não se levar a sério.  Pelo contrário, só quem tem bastante seriedade é capaz de transformar conceitos em estalos hilários.   É preciso uma análise profunda de si mesmo para expressar isso em piadas, esquetes, situações cômicas, etc.   Quando se ri de si mesmo, aceita-se a limitação, a dificuldade e tal constatação ajuda na luta para se vencer os obstáculos.  Que, no Brasil de agora, são inúmeros.

          Não confundir humor com futilidade, o superficialismo existe nos dramas e em qualquer manifestação do pensamento humano.  Quando se diz que rir muito é falta de juízo, há um engano, chorar demais também demonstra ausência de senso.  É rindo que se mudam os costumes.  Tanto é verdade que rimos de regras sociais antigas que ficaram ultrapassadas.   

          O humor é rir de si mesmo.  Principalmente, porque, ao perceber os erros, o ser humano se torna capaz de mudar o que fez de errado. 

          Rir não é o melhor remédio, mas, talvez, a forma positiva de se buscar a solução.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now