- Duro é ser escritor duro

       

          Num grupo do Face, alguém escreveu pedindo livros de presente, fiz a bobagem de postar que sou contra o hábito brasileiro de achar que arte tem de ser de graça. Lembrei que escritor come, paga boleto e etc. Recebi uma série de contestações, a maioria partindo para a agressão me chamando de mesquinho, elitista e “falador de merda”.  Tentei explicar e escrevi isto aí:

 

“Se eu postasse “Quero receber uma garrafa de vinho branco português.” Você acharia “normal”? Nada tenho contra doações e acho que em certas circunstâncias, a doação de livros é pertinente. O que não me agrada é a cultura do “de graça” para os livros como se não existisse um mercado com profissionais merecendo remuneração pelo trabalho desempenhado para que o “produto livro” chegue ao público. Toda vez que posto elogio a um artigo que li em O Globo, jornal que assino, alguém me pede para printar o texto porque é exclusivo para assinantes. Por que faria isso? Por que a pessoa não vai à banca comprar o jornal? Por que teria de divulgar de graça um texto que paguei para ler e o autor tem o direito de receber por ele? Essa mania de gratuidade que o brasileiro tem em relação à arte é impressionante. Li numa seção de cartas, um sujeito furioso porque se hospeda num hotel que parou de tocar música ambiente devido à cobrança do Ecad. O hotel cobra diária dos hóspedes e não quer pagar direito autoral a compositores, por quê? Nada tenho contra doações, apenas, não me agrada essa cultura da gratuidade em relação ao livro. Por favor, entenda meu ponto de vista e não me considere um desumano que não quer doar livros.”

        A minha explicação piorou a situação porque fui chamado de elitista que não queria dividir o conhecimento.  Quem escreve isso desconhece que fui roteirista de Rádio AM durante mais de 20 anos e dividi meus conhecimentos com ouvintes que, muitas vezes, não teriam acesso a textos desse tipo. Alguém saudou a pirataria como democratização do saber.  Um lá me comparou a jogador de futebol que ganha grana dos clubes e, nas férias, joga futevôlei de graça na praia.  Se alguém entender o que o cara quis dizer com isso, explique-me porque não entendi nada.  Sei que – na cabeça de quem escreveu – é uma ofensa grave.

        Nada tenho contra doações, mas é preciso que se veja quem produz arte como um trabalhador que tem de ser remunerado com dignidade.  Essa ideia de que o produtor de arte é alguém que deve se desfazer dos bens materiais gera também a ofensa que corre por aí de que

              “são todos esquerdistas e reclamam porque a mamata acabou.”.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now