- Crime no Recreio

         

 

     No Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio, uma dentista recebe em seu consultório um miliciano que veio cobrar a taxa de proteção, mensalidade paga na região para ter vida, negócio ou moradia preservados.  Milícias são grupos que supostamente combatem bandidos, traficantes e marginais que ameaçam a paz em áreas da cidade. 

          A dentista e o miliciano iniciam um caso amoroso e ela paga 10 mil Reais a ele para que o marido dela seja assassinado.  O esposo da dentista sofre uma emboscada e seu corpo é encontrado num local deserto, característica da desova.  Isto é, forma com que matadores se desfazem dos cadáveres de suas vítimas.

          A trama é desvendada pela Polícia e a dentista está presa.  O miliciano se encontra foragido.

          A história revela a banalização do crime no Brasil.  Grupos vendem proteção a comerciantes, moradores e profissionais liberais de um bairro.  Também oferecem tal estrutura para executar pessoas em caso de encomenda.  Além do tráfico, do crime organizado, da contravenção, o brasileiro convive com quadrilhas que acenam com uma “ajuda à sociedade” para combater o que o Poder Público parece impotente para subjugar.  O mais grave: essas milícias têm ligações com autoridades, políticos e instituições que deveriam estar ao lado da lei.

          Há uma corrente de pensamento que atribui a expansão da violência aos que defendem direitos humanos.  Segundo essa parcela da população (na maioria, eleitores do presidente da República), o crime se alastra porque os defensores de bandidos impedem o trabalho de policiais que ficam sem poder reagir às afrontas dos criminosos.  Para essa corrente de opinião, quem mata em nome da lei – mesmo em execuções clandestinas – não deveria ser punido, pelo contrário, exaltado.  Por isso, as milícias expandiram seus domínios e, atualmente, têm total poder sobre áreas da cidade autorizando construções, impondo regras de convivência, normas de comportamento e decidindo quem deve ou não morar nas comunidades dominadas.

          A dentista que se apaixonou pelo miliciano e contratou seus serviços para executar o marido e ganhar o dinheiro do seguro é exemplo da banalização do crime.  Os valores estão invertidos ou solapados.  Há até traficantes proibindo o livre exercício da fé porque se dizem de Jesus e a Bíblia não permite cultos afro-brasileiros como umbanda e candomblé.

          A solução dessa promiscuidade parece longe e cada vez mais difícil.  Há os que pregam a distribuição de armas para que a população reaja, o que será uma carnificina sem limites.  Há os que falam em endurecimento do regime para que se volte aos “tempos de tranquilidade” da ditadura militar.

          Resolver a grave falência da Segurança Pública está difícil.  Mas, com certeza, passa longe das duas opções acima.