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Rio não é Berlim.

      João Carlos Viegas

 

      Os banheiros públicos em Berlim são impecavelmente limpos o que pode ser considerado sinal de civilidade.  Quem nunca viu, se espanta e logo pensa que seria bom na terra de onde veio ser assim também.  Mas Berlim não é o Rio embora eu tenha fotografado carros em cima da calçada, irregularidade que aqui provoca revolta e queixas contra a fiscalização.  Também flagrei ciclistas discutindo com taxistas e motoristas de ônibus que não estariam respeitando os limites das ciclovias e ciclofaixas.  Espantei-me porque sempre ouvi dizer que, no “Primeiro Mundo”, coisas desse tipo não acontecem.

      Na história de Berlim, há um sofrimento que carioca algum imagina: a divisão física da cidade.  De um lado, Estados Unidos, Inglaterra e França, os aliados, ocuparam; do outro, a ocupação foi da União Soviética.  No meio, ficou o alemão sem poder circular pela sua cidade que ainda ganharia um muro.  Ao longo da história, muros serviram para evitar invasões de fora para dentro.  O “Muro da Vergonha”, assim chamado pelos anticomunistas, servia para não deixar que as pessoas do lado soviético (ironicamente denominado Democrático) pulassem de vontade própria para o setor aliado. 

      Não consigo imaginar alguém de Jacarepaguá sem poder ir a São Cristóvão ou o morador de Piedade impedido de mergulhar em Ipanema por causa de um muro de concreto e arame farpado separando as regiões. 

      As tentativas de fuga foram inúmeras da Berlim soviética para a Berlim aliada e mortes aconteceram.  Até o rio que divide a cidade tinha um obstáculo impedindo a travessia a nado.  Dizem que, se fosse um aposentado, os soviéticos facilitavam a fuga porque representava uma despesa a menos.  Afinal, o Estado onipresente do comunismo não precisaria pagar a aposentadoria.  Tomara que o governo brasileiro não pegue tal exemplo para resolver os impasses da Previdência.  Seriam capazes de erguer um muro nos separando da Argentina e incentivariam a fuga de pensionistas e inativos.

      Não gosto quando comparam alemães a nazistas.  Acredito que essa vergonha histórica seja uma ferida num povo que tem se mostrado tolerante com refugiados.  Vi em Berlim uma gente educada, alegre e recepcionando povos inúmeros que têm procurado a cidade em busca de alternativa para trabalhar com diversas formas de arte.  Berlim se tornou uma convergência de artistas e dá para notar a diversidade nas suas ruas bem organizadas.

      Berlim é um exemplo de superação depois de destruída pela guerra e pelo muro.  O Rio de Janeiro precisou superar problemas quando deixou de ser capital do país.   São duas cidades geográfica e culturalmente distantes. Berlim derrubou seu muro e o Rio tem de aprender a vencer os seus.  Mas aí é outra história.