Leia

As coisas que ficam. 

                      João Carlos Viegas.

      No elevador, duas mulheres conversam e uma delas se declara capaz de abrir mão de alguma vantagem para ajudar alguém.  "Sou que nem o Apolônio." ela diz.  Com um sorriso de espanto, olhei para ela que me disse: "Lembra, hein?".  As duas saltam do elevador antes que eu confirme a minha lembrança do Apolônio, personagem de uma peça publicitária de grande sucesso nos anos 70.  Apolônio era interpretado por um ator calvo cuja aparência ingênua reforçava seu dom de se deixar em segundo plano para favorecer os outros.  Numa das propagandas, ele é sorteado num consórcio de automóvel mas abre mão do carro para que um amigo mais necessitado fique com o prêmio.  O final do filme mostrava Apolônio pedalando uma bicicleta e gritando: "Um dia, chego lá!".  Cena capaz de irritar os tão sensíveis ciclistas contemporâneos por classificar a bicicleta como um veículo inferior ao automóvel.

      Apolônio pertence as coisas que ficam.  Claro, as gerações mais novas não sabem de quem se trata, mas os de mais idade ainda o guardam na cabeça embora não recordem outras propagandas.  Um outro exemplo é o desodorante que - se a gente usar - caberá em qualquer espaço.  Ainda ouço esparsamente uma pessoa dizendo que vai entrar no vagão cheio do Metrô ou no ônibus ou no elevador porque usa o tal desodorante e com esse produto: "Sempre cabe mais um.". 

      O que faz uma coisa ficar? Músicas somem depois de algum sucesso, sucumbem com as modas.  Porém, existem outras que eram sucesso na Bossa Nova, passaram a Jovem Guarda, o Pagode, o Sertanejo e estão por aí.  O que faz uma coisa se tornar alheia ao tempo que passa? Logo o tempo que passa o maior inimigo de todos nós. 

      Agora mesmo, uma rede de tevê anuncia que não transmitirá mais o Pica-pau que eu vi e meus filhos viram. Embora existam outros personagens tão duradouros quanto, o Pica-pau não tem novas versões.  São as mesmas que têm se repetido durante tantas gerações.  Tenho certeza de que o Pica-pau vai dar só um tempo.  Ele é uma das coisas que ficam.  Daqui a alguns anos, diante de algum aparelho de tevê, uma criança vai rir muito com o Pica-pau descendo as Cataratas do Niágara.  Não sei se estarei aqui.  Afinal, ao contrário do Apolônio, do desodorante e do Pica-pau; não pertenço às coisas que ficam.